Alpendre poesia

Três poemas de Luciano de Castro

Imagem de Brian Merrill por Pixabay

Lira dos 30 anos

Viver, caminhar
Cumprir o destino, andar
Destino secreto
Amigo (ou inimigo) oculto
Como se diz lá em Minas

Minas donde vim
Tocantins donde vieste
Goiás que nos misturou
Numa festa
Uma despretensiosa fresta

Antes, eras boca, olhos, sortilégios
Hoje, és parte de mim
Mina de amor
És alimento, cor
Do meu existir
Desse tal de porvir

Nossa conta deu certo
Noves fora zero
Nove dias de junho
Teimoso testemunho
De carne feita uma só
De ímã, de laços, de nó

Uma antiga canção, uma lira
30 anos então!
E as rodas do tempo a girar, a girar
A nos imiscuir
E nunca há de ruir
Nosso amor milenar

*

Benedita Barata

Poeminha dedicado a Estevão de Castro

A Barata Benedita escapou por pouco
Dasdô começou a espanar o pó
E se assustou quando a viu só
Quietinha e displicente
Na escultura de Miró
A peça é uma réplica, quase igual
Dasdô não se importa com tal
Ela não sabe quem é Miró
Mas tem medo de baratas displicentes
Medo não, doutor, nojo
Eu não, Dasdô, tenho dó.

Dó de bicho asqueroso? que horror!
Tenho dó da Benedita, minha baratinha fiel
Não voa, não faz cocô
Toda barata voa, doutor
A Dita é diferente, Dasdô
Seu abdômen, suas asas, antenas
Não são feitos de queratina
Não entendi, como assim?
É que Benedita, menina
É uma barata de plástico
Não morre com naftalina

Mas, gente, agora entendi
Que a bicha não morria com nada
Nem tapa, nem chinelada
Tadinha da bichinha, Dasdô
Sofreu como flagelada
Escritor é mesmo engraçado
Tem cada coisa esquisita
Imagina ter uma barata falsa
Só prá assustar as visitas
Ô Dasdô, não é essa a intenção
Dita é só um amuleto, uma fonte de inspiração

*

A duras penas

O planeta Terra, esse astro inconsequente e sem luz própria,
descobriu, a duras penas,
Três ferramentas eficazes
Para se combater a Peste-19

Isolamento social
Vacinas
Consciência

No Brasil, o governo
Covarde e refém do empresário gordo
É contra os lockdowns, a economia não resiste

No Brasil, o governo
Tácita ou abertamente
É contra as vacinas, são chips de maldade chinesa

No Brasil, o povo, andrajoso e ignorante,
ainda não adquiriu, mesmo a duras penas,
A consciência: sensorial, social, substancial
Do que é, e será a pandemia

Esse arranjo não poderia ser mesmo auspicioso
Salve-se quem puder!

*

* Poemas escritos pelo autor em fevereiro de 2021.

***

Luciano de Castro é mineiro de Teófilo Otoni, cruzeirense, dentista, especialista, mestre, doutor e professor da Universidade Federal de Goiás, goianiense, apaixonado pela natureza, por história e por literatura. Um sujeito metido a escritor.

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