Alpendre Conto Hellen Araújo

O penteado de mãinha

Imagem: Reprodução

Por Hellen Christina – 09/02/2021

Quase tudo é rosa na minha casa: plantei flores rosas rugosas na faixada, pintei de cor rosa-rubra as paredes da sala e cozinha e, no meu quarto, comprei uma penteadeira da cor rosa pink. Parece exagero ter uma variedade de rosa em uma casa, mas eu nem ligo quando alguém vem falar bosta. Rosa era a cor preferida da minha eterna mãinha, isso faz que eu nunca esqueça dela. Rosas também era o que saia da sua boca, uma rosa de algodão doce. Mas nem todo rosa que rodeava nossas vidas sempre foi doce. Lembro-me, como se fosse hoje, o primeiro e último dia que ela foi na escola por minha causa.

Eu saia do Povoado Anel caminhando até a escola 13 de Outubro, porque naquela época não tinha transporte para estudar em Viçosa. Eu era a mais nova de oito irmãos, mãinha não tinha condições de comprar caderno pra todo mundo e muito menos sandálias. O trabalho na roça não rendia muito. Quatro irmãos estudavam pela manhã e outros, no horário da tarde, para poder dividir o caderno e as sandálias. Eu estuava a tarde e quando meus irmãos chegavam já estávamos arrumados, só pegávamos o caderno e calçávamos a sandálias. Andávamos em passos acelerados pra chegar a tempo, mas sempre chegávamos atrasados…mas chegávamos.

Agora não, mas naquele tempo, meu cabelo era muito grande e cheio. Minha mãe era cuidadosa: não queria que fossemos malamanhados para escola. Ela me penteava todo dia, mas tinha um modelo de penteado que ela mais gostava de fazer, porque dizia que valorizava meus cachos. Ela prendia só a parte de cima do meu cabelo com uma chuchinha deixando o resto solto. Eu amava esse penteado, mas me causava grandes problemas na escola. A escola era longe e devido a caminhada, o meu cabelo chegava um balaio de tão cheio que ficava. O penteado não permanecia do mesmo jeito e não dava nem tempo de ir ao banheiro pra arrumar um pouquinho. Eu já chegava correndo para sala de aula. Quando entrava, todo mundo ficava me olhando e rindo. Sempre tinha um engraçadinho que dizia: – Chegou o cabelo de balaio.

Eu sentava sozinha na sala de aula. O povo da cidade se achava, e não queria sentar do meu lado porque além de preta eu era do sítio. Quando passava, eles começavam a cantar aquela música: – nega do cabelo duro que não gosta de pentear. Mas isso não era verdade, quando eu saia de casa minha mãe penteava, as vezes eu tinha muita vontade de fazer com que eles engolissem cada letra dessa música, mas eu tinha muito medo de brigar. Porque minha mãe dizia que se eu brigasse na escola eu iria levar uma pisa do meu pai, mas se eu brigasse e apanhasse, levaria uma pisa em dobro.

Pensava em pedir para minha mãe fazer outro penteado no meu cabelo para esconder meus cachos, mas tinha medo dela ficar triste e não querer mais penteá-los. Era tão bom os dedos dela entrando no meu couro cabeludo enquanto passava óleo de coco, era nosso tempo juntas. Mas a frase que ela mais repetia era: – Fabiana, o primeiro marido de uma mulher é seu trabalho. Ainda ficava mandando eu estudar para conseguir um bom emprego, mas eu adorava estudar só não gostava da escola, porque não me davam sossego.

Teve um dia na escola que não consegui segurar meus impulsos. Tinha acabado a aula pra irmos ao intervalo, quando estava saindo da sala, alguns alunos fecharam a aporta, e uma bichinha, que era a queridinha da turma, estava mastigando um chiclete. Ela parou de mascar e segurou na sua mão e foi direcionando até o meu cabelo, fiquei paralisada. Não acreditava! Não queria acreditar, ela não iria fazer isso comigo, mas ela fez. Colocou chiclete no meu cabelo. Eu nem respirei, enrolei o cabelo dela na minha mão e rodei, rodei e rodei, que ela parecia um pião na minha mão. Dei uma pisa boa naquela safada. Só parei quando a professora me puxou e nos levou pra sala da direção. A diretora foi curta e grossa, não poderíamos mais estudar na escola enquanto nossos pais não conversassem com ela.

Não poderia ir para casa sozinha e fiquei esperando meus irmãos na porta da escola, na medida em que meu sague esfriava, meu coração acelerava de medo. Pensei em tanta coisa, vou ser expulsa da escola, vou levar uma pisa do meu pai e se continuar estudando nessa escola, ninguém vai me deixar mais em paz, mas eu nunca tive paz mesmo. O que dava mesmo era não poder continuar meus estudos, como teria um bom emprego? Eu seria a decepção da minha família.

Meus irmãos chegaram já não me deixaram pensar direito, um dizia: – Vai apanhar bichinha quando chegar em casa com correia de sofá, o outro sorria dizendo:- Vai ser com vara de goiabeira. Mas nada disso me abalava, não tinha medo da pisa que meu pai poderia me dar. Eu não queria ser expulsa da escola e decepcionar minha mãe pensei em mentir, mas meus irmãos iriam contar. Então resolvi contar eu mesma toda a verdade.

Quando contei a mãinha ela não acreditou em nada do que falei. Como poderia sofrer na escola por conta do meu cabelo se ela penteava todos os dias? Nesse dia não consegui dormir, virava de um lado para o outro. Mãinha parou de falar comigo e aquele silêncio foi uma facada. Às vezes as palavras dela era pior que uma pisa, mas o silêncio era insuportável.

No outro dia seguimos do mesmo jeito: ela fez o mesmo penteado e esperamos meus irmãos chegar da escola. Entrei na sala da direção junto com ela e a mãe da bonitona que jogou chiclete em mim. Ela nem foi, porque estava com a cabeça doendo de tanto que girei. Quando a diretora chegou, meu coração acelerou. Ela pediu para eu sair, porque era uma conversa entre mães. Fiquei com tanta raiva nessa hora… como falar do meu futuro sem a minha presença. Mas nem demorou muito essa conversa. Minha mãe saiu e foi puxando pelo meu braço: – vamos embora daqui e amanhã você volta. Eu fiquei aliviada porque expulsa eu não seria, mas o silêncio ainda me matava. Ainda não sabia se levaria uma pisa do meu pai. Mas pelo menos mãinha falou comigo, mas foram só essas palavras. Eu perguntava: – Mãe, vou levar uma pisa? Mas ela não dizia nada. Passei o resto do dia calada, meu pai chegou no fim da tarde e nada de pisa, nesse dia fui dormir logo cedo.

Quando acordei fui fazer as coisas em casa meio cabreira. Mãinha gritou. – Fabiana, venha almoçar. Fiquei gelada, paralisada, seria aquele momento que iria levar uma pisa. Meu pai já tinha chegado pra comer. Almocei, tomei banho e minha mãe fez um novo penteado, dessa vez ela não tinha amarrado em cima. Passou muito olho de coco e deixou ele solto e prendeu uma rosa rugosa na lateral perto da orelha. Fiquei tão linda, mas fiquei pensando que ninguém iria me deixar em paz naquela escola. Quando minha mãe terminou de pentear meu cabelo, olhou pra mim e disse:- Eu quero bem cheio, porque quero ver quem vai rir do seu cabelo. E se alguém disser qualquer coisinha que seja não faça nada, só me avise, que, quem vai resolver dessa vez sou eu, porque não crio você para ser piada na escola.

Fui com os meus cachos bem esvoaçantes, mas não estava nem aí, porque se minha mãe falou estava falado. Nem quis saber de mais nada. Só depois de sua morte painho contou o que aconteceu na sala da diretora. Mãinha brigou com a mãe da bichinha que jogou chiclete em meu cabelo, porque ela falou que a filha dela só fez isso, por culpa dela, que não penteava o cabelo da própria filha.

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Hellen Cristina é escritora, professora de Sociologia pela Secretária de Estado da Educação (SEDUC-AL), Mestra em Antropologia Social e Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas. Pesquisa sobre raça, gênero e beleza tendo como metodologia a autoetnografia, ou seja, suas vivências são fontes principais de análise.

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