Colaboradores Ricardo Escudeiro

Troiana, de Jericho Brown // Tradução de Ricardo Escudeiro

Jericho Brown. Reprodução.

Jericho Brown, PhD pela University of Houston, é professor associado e diretor do programa de Escrita Criativa da Emory University, em Atlanta. Seu primeiro livro, Please (New Issues, 2008), ganhou o American Book Award, e seu segundo livro, The New Testament (Copper Canyon, 2014), foi eleito um dos melhores livros de poesia do ano pelo Library Journal e recebeu o Prêmio Anisfield-Wolf. Sua terceira publicação, The Tradition (Copper Canyon, 2019), ganhou o Prêmio Pulitzer de Poesia e foi finalista de vários prêmios, incluindo o National Book Critics Circle Award. Tem poemas publicados mídias como Nation, New Republic, New Yorker, Paris Review, Time, em vários volumes das antologias de The Best American Poetry, entre outras.


Trojan

When a hurricane sends
Winds far enough north
To put our power out,
We only think of winning
The war bodies wage
To prove the border
Between them isn’t real.
An act of God, so sweet.
No TV. No novel. No
Recreation but one
Another, and neither of us
Willing to kill. I don’t care
That I don’t love my lover.
Knowing where to stroke
In little light, knowing what
Will happen to me and how
Soon, these rank higher
Than a clear view
Of the face I’d otherwise
Flay had I some training
In combat, a blade, a few
Matches. Candles are
Romantic because
We understand shadows.
We recognize the shape
Of what once made us
Come, so we come
Thinking of approach
In ways that forgo
Substance. I’m breathing —
Heaving now —
In my own skin, and I
Know it. Romance is
An act. The perimeter
Stays intact. We make out
So little that I can’t help
But imagine my safety.
I get to tell the truth
About what kind
Of a person lives and who
Dies. Barefoot survivors.
Damned heroes, each
Corpse lit on a pyre.
Patroclus died because
He could not see
What he really was inside
His lover’s armor.

Troiana

Quando um furacão sopra
Ventos longe o suficiente ao norte
Pra nos deixar sem energia,
Nós só pensamos em ganhar
A guerra que os corpos deflagram
Pra mostrar que a fronteira
Entre eles é irreal.
Um ato de Deus, tão terno.
Sem TV. Sem livro. Sem
Lazeres a não ser
Um ao outro, e nenhum de nós
Disposto a matar. Eu não ligo
Que eu não ame meu amante.
Saber onde apalpar
À meia-luz, saber o que
Vai me acontecer e quão
Logo, essas coisas pontuam mais
Do que uma visão clara
Do rosto que eu teria noutra situação
Esfolado tivesse eu algum treino
Em combate, uma espada, algumas
Disputas. Velas
São românticas porque
Nós entendemos as sombras.
Nós reconhecemos a forma
Daquilo que um dia nos fez
Chegar, então chegamos
Pensando em maneiras
De aproximação que dispensem
Substância. Eu estou respirando –
Ofegante agora –
Em minha própria pele, e eu
Sei disso. Romance é
Um ato. O perímetro
Fica intacto. Nós nos pegamos
Tão pouco que não posso evitar
Só imaginar minha segurança.
Eu consigo contar a verdade
Sobre qual tipo
De pessoa vive e qual
Morre. Sobreviventes descalços.
Heróis condenados, cada
Cadáver aceso numa pira.
Pátroclo morreu porque
Ele não conseguia enxergar
O que ele realmente era por dentro
Da armadura de seu amante.

* o poema está em poetryfoundation.org

***

.

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

%d blogueiros gostam disto: