Colaboradores Stéfany Caldas

Amor pra ser amor, tem que ser difícil?

Imagem de Elena Mullagaleeva por Pixabay

Por Stéfany Caldas – 01/02/2021

Com a virada do ponteiro de 23h59 para às 00h, diversos casais olhavam para o céu com o desejo de um novo ano de muito romance. Entre os vários registros dispostos numa rede social, um deles me chamou a atenção. Um garoto anunciava feliz o início do relacionamento com a garota a qual era a fim.

O que me fez parar para ver o post, neste caso, foi mesmo a legenda. Nela, o jovem rapaz relatava que havia passado todo o ano anterior investindo para ouvir o tão sonhado sim, finalizando com diversas citações que apontavam a resiliência e a espera como caminhos para a felicidade.

Não tenho a menor ideia do que esses jovens passaram ao longo de 2020 até que a garota decidisse dar uma chance ao relacionamento, mas, confesso, fui tomada por reflexões a partir de então.

Existem diversas crenças que povoam a mente de todos nós, ou que ouvimos com frequência, quando se trata da paquera. “Não se mostrar tão disponível”, “demorar a responder”, “sumir pra ele vir atrás”, “descobrir o jeito certo de xavecar”, são algumas.

Para falar dessas e de outras concepções, que podem aparecer em outras várias áreas da nossa vida, a psicologia cunhou o termo “crença limitante”. Que é justamente quando o indivíduo, a partir de uma vivência ou experiência, toma o seu ponto de vista como verdade absoluta.

Pensar que os amores mais bonitos seriam aqueles desenrolados a partir de uma árdua conquista e uma pitada de desinteresse não estariam inclusos nisso?

O jornalista Ivan Martins, colunista sobre relacionamentos há bastante tempo, também falou sobre o assunto. Em sua coluna na revista Época, em 2011, ele escreveu que “O amor bom é facinho”:

Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. (…) De tanto ouvir essa conversa – na escola, no esporte, no escritório – levamos seus pressupostos para a vida afetiva”.

E, com isso, inconscientemente, pessoas vão se treinando e sendo treinadas a encarar o campo amoroso como um eterno conta-gotas de interesse e desinteresse, oportunidade e escassez. Desconsideramos que, apesar de toda a subjetividade envolvida, na real, na real mesmo, as coisas costumam ser bem mais simples.

Esquecemos que a paquera e a conquista têm a ver com vulnerabilidade. Alguém demonstra interesse. Alguém corresponde ou dá sinais de que não é bem assim. Ainda que não verbais. Sinais aparecem em forma de mensagens visualizadas e ignoradas, em falta de interesse sobre outras áreas da sua vida. Em ter dúvidas se sente vontade de estar com você.

Essas pistas são deixadas aqui e ali, e não raro as pessoas vão se acostumando a relevar, ou a continuar os movimentos como se estivessem mesmo num jogo. Ignora um pouco de volta dali, demora a responder de lá, faz ciúme, busca outra estratégia. Muito conflito interno até que o óbvio apareça.

Não quero com isso dizer que é preciso aguardar o alinhamento de todas as circunstâncias pra que sua mãozinha possa então entrelaçar-se à mãozinha do outro. Nem que relacionamentos como o dos garotos não possam florescer em algo genuíno. Atento para o que tomamos como verdade.

Questões a serem discutidas e melhoradas sempre existirão. Mas presta atenção pra que elas sejam externas. E que a vontade de ficar junto some forças pra quem vocês resolvam tudo com serenidade e menos angústias, sem que o sofrimento e a dificuldade sejam via de regra para o caminho.

Pra finalizar com Ivan:

Ser amado de graça (…) é a homenagem mais bacana que uma pessoa pode nos fazer. Você está ali, na vida (…) e a pessoa simplesmente gosta de você. Ou você se aproxima com uma conversa fiada e ela recebe esse gesto de braços abertos. O que pode ser melhor do que isso? O que pode ser melhor do que ser gostado por aquilo que se é – sem truques, sem jogos de sedução, sem premeditações?

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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