Colaboradores Crônica Glória Damasceno

It’s a beautiful day in the kitchen

Foto: Arquivo Pessoal / Glória Damasceno

Por Glória Damasceno – 28/01/2021

Quem nunca sentiu prazer em ver os pratos do sábado à noite lavados no domingo de manhã que atire a primeira frigideira suja de óleo (pra longe de mim)! Mais lindo que uma louça estendida no fogão e/ou no escorredor, só uma janela aberta deixando o frio do inverno e a luminosidade do amanhecer passar, e se debruçar toda manhosa sobre… as panelas limpas — e secas sem a ajuda de um fiapo de pano de prato. Beleza e paz de espírito para todo lado! Nessas horas viver não dói.

Cozinha em ordem, pode-se sem preocupação alguma cortar uma banana madura para comer com uma colherada generosa de pasta de amendoim (de preferência muito crocante) enquanto a cafeteira vai passando o grão em pó, enquanto o relógio vai coando os minutos; enquanto o café com o seu aroma atravessa todos os buracos da casa, especialmente os localizados acima das bocas recentemente amanhecidas pelo beijo de um dia que se pretende bom. Verdade ou propaganda? Tudo isso ao sabor do último episódio do 451 MHz — “o podcast pra quem gosta de ler até com os ouvidos”. Café pronto, é hora de adicionar o leite! (Melhor casamento não há — depois da goiabada com queijo!)

Tomo o primeiro gole, o quase sempre melhor de todos, e escuto o Itamar Vieira Junior, autor de “Torto Arado”, falar um pouco sobre o processo criativo dele, o que me fez pensar sobre o meu (quase) inexistente. Beberico mais um pouco, sigo pensando na ansiedade tratora, que não é só do Itamar e isso me faz me sentir menos angustiada. A ansiedade é a mãe dos pés pelas mãos — penso. Nessas horas viver requer paciência.

Mas até a fantasia possível do correr do dia tem seus estresses e desentendimentos. Então se trava a briga, se debate os argumentos, as razões da briga, a briga em si mesma, e a briga que ficou pela metade, e a que não se brigou direito ontem. Só depois de brigar tudo que tinha para brigar, o sorriso tremendamente desajeitado vem porque foi ridículo brigar desta vez e porque nenhuma das partes sabem sequer o motivo da desavença de meia hora atrás. Já podem os ranzinzas abraçarem-se?! Ainda não, mas vão depois que as dezenas de embalagens de doce e a fileira de copos sujos forem catados da sala-de-estar-e-adormecer-quando-a-escolha-do-filme-não-é-a-sua. Viver é uma beliscada atrás da outra com intervalos de sorvete de morango. (Se este de longe não é seu sorvete favorito, então viver é beliscão e ponto.)

Enquanto isso, o livro em cima do sofá espera ser lido. O livro, presente de uma amiga, almeja ser finalmente iniciado pois está há duas semanas na lista das “prioridades do dia”. Imagine se não estivesse! Alguém minou o sentido de urgência da palavra, ou andou equivocando-se nas gravidades. É da raça ser contradição e exagerar — às vezes para mais; outras, menos, bem menos. Uma página depois, e o fato constatado: a leitura seria muito mais prazerosa se tivesse antes tomado um banho de águas mornas. Abandona-se a “prioridade” de novo, ensaboa o corpo, a cabeça de ideias borbulhantes, a esponja feita para desimpregnar o impregnado. Eu desimpregnava. Eu desimpregnei. Eu desimpregnaria. Pode mesmo essa coisa inanimada desimpregnar tanto?! Que nós desimpregnemos o que der, e o que não pode ser adiado (de novo).

De volta à cozinha, mais uma xícara de café com leite, e o abraço de quem também se desimpregnou de alguma sujeirinha tola. Viver – nessa hora inesperada – é uma confissão sem mistério.

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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