Colaboradores Oldemburgo Neto

De perto ninguém é normal

Imagem: Deviantart / Reprodução.

Por Oldemburgo Neto – 22/01/2021

Sorrisos mascaram tristezas profundas e alegrias podem esconder angústias, como na natureza há mares revoltos e rios tranquilos, tempestade e calmaria. A mente humana é, no contexto desta analogia, o leme que norteia o nosso navegar: ora estamos na rota certa, ora num prumo tortuoso ou, muitas vezes, totalmente sem rumo.

Infelizmente, por ignorância e preconceito ao longo de muitos anos, convencionou-se dizer e acreditar que aqueles que buscam tratamento psiquiátrico ou psicológico são “loucos”, “doidos” e afins. Esse pensamento, que ainda habita o imaginário coletivo do brasileiro médio, é um grande obstáculo para que pacientes possam se encorajar e buscar ajuda profissional.

Por esse motivo, com vistas a salvaguardar a saúde mental da população, urge ao governo implementar e fortalecer políticas públicas de conscientização sobre o tema, desmistificando crenças limitantes e oportunizando tratamento a quem necessita, sobretudo àqueles que não podem pagar por uma consulta e por medicamentos, que, em suma, custam caro e não cabem no orçamento de muitas famílias brasileiras.

É tempo de olhar pra frente sem as amarras preconceituosas do passado. É tempo de perceber que o mundo está mudando e nós temos de mudar junto com ele. Não há de se ter estigma ante o cuidado com a saúde mental: ao contrário, o reconhecimento do problema e a sujeição ao tratamento é uma das principais formas de amor ao próximo e de amor próprio, elemento fundamental para sermos senhores de nós mesmos e não escravos dos dissabores da vida.

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Texto original escrito a punho, na tarde do último domingo (17), numa sala de aula da Escola Estadual Professor Theotônio Vilela Brandão, durante a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Foi minha redação em exatas 26 linhas e após exatos 15 dias desde que me sujeitei, pela primeira vez na vida, a um tratamento psiquiátrico. Estou fazendo uso regular de medicação desde o dia 5 de janeiro e me sinto muito melhor agora do que antes. Também (mas não somente) por esse motivo, estive temporariamente ausente das redes e deste espaço. Aos poucos, tudo está voltando ao normal. Agradeço a todos os leitores pela paciência & compreensão dispensadas. Dias melhores sempre virão!

Como cortesia, vos deixo um belíssimo poema de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos). Saudações!

MAGNIFICAT

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

***

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Oldemburgo Neto é jornalista, graduado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com passagens por redações de web (Portal G1), jornal impresso (Gazeta de Alagoas) e assessoria de comunicação (Companhia de Saneamento de Alagoas). Também colabora com textos nos coletivos Jornalistas Livres e Mídia Caeté. Músico nas bandas alagoanas Garden e Alma de Borracha. Progressista & alucinado pela arte de viver.

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