Crônica Opinião

Sarcófago de Tararo

Foto: Reprodução.

Por Diogo Mendes – 20/01/2021

Hieróglifos, alguns hieróglifos, sobreviveram às marcas do tempo, para contar sobre essa mulher. Do nosso período, sabemos pouco, um nome que talvez nem seja o dela, também sua medição corporal. Envolvido por ataduras um corpo conservado por gerações, que carregou massa humana, detentora de vida. Nem ao certo, temos a informação, qual idade, ela entrou em viagem de encontro com a morte, atravessando todos os ritos da religião egípcia. Um fragmento, recuperamos da Era Núbia, quando inúmeras mulheres negras governaram aquela localidade. Pela confecção do sarcófago, foi alguém da realeza ou ligada ao poder, do país das grandes pirâmides.

Este é o nome na plaqueta de fundo bege e letras douradas, Tararo concordaria conosco da chatice do infinito, mesmo estando milênios de distância. Dentro de uma caixa envidraçada, que regulariza, o ar mais adequado para conservação de material orgânico, madeira, estuque, pintura e linho. Aguenta fotos, também tiramos as nossas, só não tivemos a pachorra de publicá-las nas redes sociais, surgiu um determinado pensamento: afinal é um cadáver, que estaríamos expondo ao mundo, aham? Mesmo sem fazermos selfies, não deixamos de tirar algumas fotos, para mais tarde vermos com calma os detalhes históricos dessa desconhecida.

Do pé da câmara mortuária, destaca um touro colorido de chifres apagados, além de poder ter alguns adornos geométricos, que perduram, e ainda não extinguiram por completo. Agora muito menos, findarão por causa de toda a meiguice, que se tem em preservar Tararo. Ela foi feliz? Defrontes aquela estrutura de vidro, tentamos levantar esse questionamento. Subindo à região que corresponde às pernas dessa pessoa, em probabilidade o Panteão Egípcio, auxilia a estrada para vida eterna. Na parte do tórax achamos um amplo danificado, possivelmente nem seja desse século, que impede de admirarmos outros caracteres.

Beleza desnecessita de explicação. Assim continuamos a olhar o sarcófago de Tararo, julgamos numa conversa rápida e outra, que nesse item estragado, algo revelaria a respeito da vida dessa mulher. A ocupação que tinha, da linhagem que veio, realizações que conquistou, e voltamos aos mistérios do Egito Antigo, sempre nos evoca, pelo menos para nós, em nossa frente. Chegamos a parte correspondente aos seios dela, na qual uma deusa alada, sic Ísis, é possível de ser vista, malgrado nos vários andares do prédio do Centro Cultural Banco do Brasil/ SP, quisesse nos prender com mais de 139 artefatos arqueológicos, impossível não regressar para ela.

Caso Tararo, foi uma boa pessoa, é outra dúvida que desponta da gente ali. Enquanto cliques e mais cliques são feitos, visitantes têm pressa que a única múmia humana do evento apareça em suas vidas virtuais, mesmo como coadjuvante, e depois seja novamente lançada ao esquecimento. No episódio, que fazemos parte, não conseguimos parar de olhar rumo ao sarcófago, procurando uma evidência até o nosso tempo – outrossim, reflita sobre estarmos vivos, tentando não entendermos, durante as eras, apesar das tecnologias, e o Egito Antigo, consistiu em incontáveis contribuições, nas mais diferentes áreas, continuamos semelhantes.

O papiro (papel originário do Egito), por exemplo, contribuiu para a estabilidade e alastramento da escrita. Sem essa fabricação, possivelmente escrever seria hoje de outra maneira. Tararo possuía tal hábito de comunicação? Tinha os próprios escribas (responsáveis pela arte da escrita egípcia), que ela censurava? Leu os hieróglifos nas paredes das áreas comuns da longínqua cidade de Tebas, e encontrou incongruências históricas? Concordava, a nobre egípcia, com todos os desmandos do poder? Os restos mortais causam essas impressões, enquanto olhamos a região de suas miúdas saboneteiras, em que repousou joias e outros badulaques. Jamais saberemos.

Por causa da padronização corporal vigente na época egípcia, pensamos se o rosto talhado na tampa do sarcófago seja próximo de quem representa. Pesadas orelhas, sobrancelhas acentuadas, nariz grosso, olhos pronunciados, cabelo ou túnica, que gera ainda mais questionamentos, ao passo que lembramos de outros tipos de mumificações expostas desde gatos, gaviões, crocodilos e peixes. Esquecemos um pouco, das nossas guerras respiratórias, também ideológicas, onde vários grupos disputam fora dali – Tararo narra indiferente, e nós idem. Cada qual preso em um tipo diverso de vidro, que protege e afasta, assim sabemos, ela logo voltará para o italiano Museo Egizio, descansando até viajar para algum lado do mundo atual.

Depois de passar na loja de suvenires, de preços no valor do ouro egípcio, caminhamos com as fotos dentro dos aparelhos telefônicos em roupas de nossa época. Ela continua em nossa mente, como uma incógnita – um dia respirou, comeu, adoeceu, amou, odiou, melindrou, trepou, mijou, cagou e tudo que nos fazem sermos humanos, antes de ser eternizada através da medicina do Egito. Irônico seria, ter sido mumificada por pressão social, algo que não saberemos, e pouco queremos saber, como humanos tiradores de selfies, que somos. Agradecemos, Tararo.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza toda a semana o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela Editora Chiado Books.

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