Alpendre Crônica

[Crônica] Ladeira e 5h13, de Lucas Radí

Imagem de David Mark por Pixabay

LADEIRA

Penso, a quantas anda a geografia acolá, já que aqui tudo parece longe, capturado nos vários altos e baixos, em horizontes tão longínquos e tão formosos. Os morros, por que tão obsoletos? Um absurdo físico, químico e espiritual atrás do outro.

enquanto dialogamos o vento leva o catamarã para algum lugar.

Daqui, mesmo com tanta esperança que se esconde entre ruínas, o fatalismo espanca, destrona, impacta e me joga ladeira abaixo. Despenco em uma anomalia fora do comum – naquele pessimismo que soa bobo-imaturo-rebelde-paranoico. Afirmo, contudo, que há felicidade em banhos e cafés frios.

5h13

Limpo a janela embaçada na curiosidade de ver o céu índigo do amanhecer. uma névoa limpa e fina cobre os montes e serras. apesar de estar a cerca de vinte metros do campo, sinto daqui seu frescor. o verde e o azul misturam-se como recortes milimétricos no horizonte. penso se alguém pode estar ali do outro lado ou, melhor, qual seria a vista de lá pra cá — do campo para a estrada.
Se quero continuar observando e descrevendo o que vejo, preciso molhar as mãos, já que o vidro da janela volta a embaçar em segundos. só eu e o motorista estamos acordados no momento, peguei no sono poucas vezes, diria que o necessário para ter vontade e conseguir olhar o tempo agora.
O mapa indica que devemos chegar em cerca de quatro horas ao destino; tempo o bastante pra olhar, desejar, criar e sentir um pouco mais o externo daqui de dentro.

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Lucas Radí tem 22 anos e é cronista em plataformas digitais. Observa ruídos e narrativas cotidianas em evidência. É estudante de História e baterista de uma banda goiana.

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