Colaboradores Stéfany Caldas

Positividade extrema, pessoas tóxicas e saúde mental como lifestyle

Imagem de Enrique Meseguer por Pixabay

Estamos nos autoconhecendo ou confundindo autocuidado com item de consumo?

Por Stéfany Caldas – 05/01/2021

De acordo com o dicionário, tóxico é tudo aquilo que tem capacidade de entorpecer e afetar o sistema nervoso por meio de veneno. A internet define pessoas tóxicas como aquelas cujos comportamentos trazem sentimentos ruins ao cotidiano e drenam a energia de quem está por perto. Já a positividade pode ser compreendida como a prática ou a tendência de ser otimista em suas atitudes.

Me diz aí se você nunca se deparou com uma das duas situações. Tem a pessoa que chega de manhã no trabalho reclamando de que nada dá certo e que está sempre cansada. Tem aquela outra que se recusa a falar sobre qualquer termo que inspire um sentimento ou uma reação que ela classifique como “bad vibe”, se cercando de palavras de gratidão pois acha que assim está se blindado do desânimo.

O que acontece é que nessa “aldeia global” em que estamos inseridos, aquela que Marshall McLuhan previu antes mesmo da chegada da internet, estamos todos conectados por uma teia de conteúdos e de informações que nos despertam os mais variados sentimentos. O que precisa ficar muito claro pra gente é que aquela que cansa e acha que tá tudo errado e aquela que se emociona com o pôr do sol e agradece a Deus e ao Universo por mais um dia são parte da mesma pessoa. Que esses sentimentos coexistem dentro de nós, feito luz e sombra, e é justamente a investigação desses pensamentos que nos levam a alguma resposta sobre nós mesmos.

Porém, como tudo dentro do nosso modelo social e econômico, que responsabiliza individualmente cada pessoa por seu “sucesso”, a saúde mental e esses padrões de comportamento começaram a ser discutidos no meio digital e em outros campos, como passíveis de serem negociados e vendidos. Nessa lógica, se você se sente mal, talvez não ande utilizando produtos de skincare, “saindo da rotina”, ignorando as pessoas “tóxicas” e os “gatilhos” do seu entorno. E aqui eu falo de gatilho não como realmente mecanismos que possam disparar uma crise de ansiedade, estou querendo dizer que o termo se popularizou a ponto de ser sinônimo de qualquer coisa que gere incômodo ou chateação.

Talvez, sem perceber, transferimos o pacto social que é firmado a partir de quando a gente elege um conjunto de pessoas que trabalharão para o desenvolvimento de um lugar, a fim de que sejam oferecidas condições dignas de trabalho, transporte, moradia, lazer, saúde, educação e alimentação, o que tem tudo a ver com a saúde mental, para a crença de que cada um deva buscar sua magia do tempo pra abraçar cada item dessa lista de autocuidado para consumo.

Precisamos voltar a pontuar que tudo o que faz parte do nosso entorno exerce influência significativa sobre como a gente se sente ao final de cada dia e de cada mês. Ter ou não vacina é saúde mental. Ter condições para investir em experiências e não comer agrotóxico em cada item do prato é saúde mental. Poder planejar uma viagem de férias é saúde mental. Passar menos tempo diariamente no ônibus lotado é saúde mental.

Investir em relações que te tragam aprendizados, conversas inspiradoras, risadas, cumplicidade e confiança e se afastar daqueles que não condizem com tua visão de mundo e com os valores dos quais você não abre mão também diz respeito à sua saúde mental. O que é bem diferente de colocar um GPS no próprio umbigo e ignorar o que acontece em volta, como se as dificuldades do outro fossem uma constante ameaça à sua felicidade individual.

E aí vem a questão da positividade extrema, ou positividade tóxica, termos parecidos. A Neurologista e Terapeuta Junguiana Francis Paciornik, em seu perfil no Instagram, explica porque nem sempre o pensamento positivo por si só funciona: “A questão é que os nossos pensamentos são a consequência dos nossos padrões inconscientes, querer mudar os nossos pensamentos sem entrar mais a fundo, é que nem tentar mudar a receita do bolo depois que ele tá pronto. Os nossos pensamentos são valiosas pistas de quais padrões estão ativos em nosso inconsciente”.

Ou seja, a ideia aqui não é bloquear a mente quando algo nebuloso surgir e começar a repetir palavras na tentativa de “trocar de estação”, é preciso entender de onde a sensação veio, e lembrar sempre que cada sentimento tem uma importância, e, no fim das contas, todos eles apontam pra possibilidade de cura, como reflete a psicoterapeuta Erika Maracaba em seu perfil na mesma rede social:

“Quanto mais ignoramos sentimentos, mais perdemos habilidade de lidar com eles, que hora ou outra explodem com mais força, já que não morrem só por serem rejeitados/ignorados. Pelo contrário, se potencializam da pior maneira possível: sem percebermos”.

Fica muito claro que não existe um passo a passo para a felicidade e a saúde mental como se ela fosse um cosmético na prateleira e nós precisássemos unicamente seguir suas instruções. E não existe uma saída pra lidar com as nossas emoções e exercer o autocuidado que envolva distribuir rótulos de mais ou menos tóxicos aos seres que estão à nossa volta e tentar viver uma vida sem interação. O aprendizado é como a canção do Gil: “aqui e agora”. E você, ainda que não esteja percebendo, já sintonizou a canção e está sendo convidado a dançar!

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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