Colaboradores Glória Damasceno

Sem delongas, nem meias-palavras

Foto: Arquivo Pessoal / Glória Damasceno

Por Glória Damasceno – 31/12/2020

Tem meia hora que penso sobre mim. Mas já está tarde! É meia-noite, e não quero me demorar. Meu nome é meia, embora eu seja inteira. Não sou pedaço, não sou metade de nada, nem de ninguém. Seres humanos adoram classificar-se metade de outros, o que suspeito ser uma licença poética dessa raça em muitos casos, mas em outros é uma sentença perigosa porque os enfraquecem, os tornam dependentes e mutilados de suas próprias pernas ou asas — como queiram.

Todavia, em se tratando de meia, sem meias verdades lhes confesso: dou melhor conta de minha missão no Reino Sai Debaixo se estiver em par, afinal dois pés aquecidos, secos (porque trato de absorver o suor) e protegidos de calçados malévolos e seu desagradável chulé é incomparavelmente melhor que apenas um. Porém, e há de se convir!, ao menos um pé quentinho já ajuda a alcançar a porta do destino do caminhante ou o distrai com outro pensamento que não perpasse a consciência do frio incômodo que faz ao redor do resto do corpo, de tudo que é vivo. Porque o frio é natural daquilo que já desencantou.

Como eu ia dizendo, me deram esse nome. Meia. Quem me deu? Não sei! Só sei que nasci com esse equívoco, modelos/tamanhos, estampas, tecido, e propósitos. Posso ser meia soquete, meia sapatilha ou invisível, meia longa, meia-calça, meia-curta, meia arrastão, meia compressora, meia social ou executiva, meia de algodão. Para cada peça de roupa e contexto, há uma versão de mim, tal qual as pessoas em geral se comportam — claro, sempre há os transgressores, aquele grupo de “gentes” que não está preocupado em se adequar a nada que venha de fora.

Além dessas serventias e usos, quando é época de jingle bells, eu faço uns freelas. As crianças e os guardiões delas (depois de muito me enfeitarem) me penduram toda pomposa e cheia de desejos em algum canto perto da árvore de Natal ou onde quer que eu possa me ancorar para receber os presentes das milhares de cartas que o paciente e amoroso velho Noel leu lá da longínqua casa dele. Contudo, essas são as crianças “de sorte”. Existem outras – as desafortunadas (vamos de antônimo!) – que sequer têm uma meia para encubar um sonho, como é o da vacina contra Covid-19 de centenas de brasileirinhos e brasileirinhas. Não há previsão, não tem plano, não tem liderança, não tem meia. Sobram crimes e criminosos.

Diferente de outros tempos, volta e meia ainda me pego pensando em quantas meias parecidas e iguais a mim guardaram para este fim de ano as alegrias de todos os tamanhos e cores que não pudemos viver ou adiamos para o ano que nasce amanhã. Podemos chamar 2020 de “O Ano Mais Azul?” Eu nunca enxuguei tantas lágrimas tristes nessa minha meia-idade tecida de algodão, e até eu que nunca peço nada ao velho Noel, pedi: espero que amanhã quase nada seja “normal” de novo.

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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