Colaboradores Ricardo Escudeiro

Dois poemas de Marilyn Nelson // Tradução de Ricardo Escudeiro

Marilyn Nelson. Foto: Reprodução.

Marilyn Nelson é professora emérita na Universidade de Connecticut, em Storrs. Foi poeta laureada de Connecticut (2001 – 2006). PhD pela Universidade de Minnesota. Poeta e tradutora, Nelson também escreveu diversos livros para crianças e jovens. Foi três vezes finalista do National Book Award, vencedora da medalha Robert Frost e recebeu bolsas da National Endowment for the Arts e da Guggenheim Foundation, entre outras homenagens. Em 2013 foi eleita Chanceler da Academy of American Poets. Em 2017 recebeu o Prêmio NCTE de Excelência em Poesia para Crianças e o prestigioso Prêmio NSK Neustadt de Literatura Infantil. Em 2019 recebeu o prêmio Ruth Lilly Poetry da Poetry Foundation. O trabalho de Nelson examina questões complexas em torno de raça, feminismo e o trauma contínuo da escravidão na vida americana. Seu livro The Homeplace (1990), finalista do National Book Award, retrata a história de sua família desde a venda da tataravó de Nelson como escrava. Entre as obras de poesia da autora estão: The Fields of Praise (1997), finalista do Prêmio de Poesia Lenore Marshall, do National Book Award e do PEN Winship Award; The Cachoeira Tales (2005); Faster Than Light: New and Selected Poems 1996-2011 (2012); How I Discovered Poetry (2014) e My Seneca Village (2015). Os muitos trabalhos de Nelson para crianças e jovens adultos incluem Carver: A Life in Poems (1995), que recebeu várias indicações e prêmios, incluindo o prêmio Flora Stieglitz Straus, o Boston Globe/Horn Book Award, o Newbery Honor Book e Coretta Scott King Honor Book. Ao longo dos poemas do livro a autora cria uma representação lírica da vida de George Washington Carver, um renomado botânico e inventor afro-americano. Suas obras recentes incluem A Wreath for Emmett Till (2005); The Freedom Business: Including a Narrative of the Life and Adventures of Venture, a Native of Africa (2008); The Story of the Greatest All-Girl Swing Band in the World (2009); e American Ace (2016). Nelson também traduziu as obras de Halfdan Rasmussen, Inge Pedersen, Euripides e Phil Dahlerup.


Bedside Reading

for St. Mark’s Episcopal, Good Friday 1999

In his careful welter of dried leaves and seeds,
soil samples, quartz pebbles, notes-to-myself, letters,
on Dr. Carver’s bedside table
next to his pocket watch,
folded in Aunt Mariah’s Bible:
the Bill of Sale.
Seven hundred dollars
for a thirteen-year-old girl named Mary.

He moves it from passage
to favorite passage.
Fifteen cents
for every day she had lived.
Three hundred fifty dollars
for each son.
No charge
for two stillborn daughters
buried out there with the Carvers’ child.

This new incandescent light makes
his evening’s reading unwaveringly easy,
if he remembers to wipe his spectacles.
He turns to the blossoming story
of Abraham’s dumbstruck luck,
of Isaac’s pure trust in his father’s wisdom.
Seven hundred dollars for all of her future.
He shakes his head.

Leitura de Cabeçeira

para Episcopal de São Marcos, Sexta-Feira Santa de 1999

Em sua cuidadosa bagunça de sementes e folhas secas,
amostras de solo, seixos de quartzo, lembretes, cartas,
na mesa de cabeceira do Dr. Carver
do lado do relógio de bolso dele,
guardado na Bíblia da Tia Mariah:
o Recibo de Venda.
Setecentos dólares
por uma menina de treze anos chamada Mary.

Ele o passa de trecho
em trecho favoritos.
Quinze centavos
por cada dia que ela viveu.
Trezentos e cinquenta dólares
por cada filho.
Sem soldo
por duas filhas natimortas
enterradas lá fora com o filho dos Carver.

Essa nova luz incandescente torna
a leitura noturna dele inabalavelmente calma,
se ele lembra de limpar os óculos.
Ele se volta para a promissora história
do estupendo destino de Abraão,
da pura confiança de Isaac na sabedoria do pai.
Setecentos dólares por todo o futuro dela.
Ele balança a cabeça.

§

Family

My master/father sent me up from South
Carolina to Boston as a nine-year-old.
My mother’s illiterate silence has been a death.
I wonder if she still labors in his fields.
His sister, dutiful but cold as snow,
gave me a little room in her house, below
the stairs with the Irish servants, who hated me
for the fatal flaw in my genealogy.
For the first time in my life I am at home
in this bevy of scholars, my first family.
Here, the wallpapers welcome me into every room,
and the mirrors see me, not my pedigree.
My sisters, Jerusha, Emilia, Elizabeth…
But Mama’s unlettered silence is a death.

Família

Meu senhor/pai me enviou de Carolina
do Sul para Boston quando eu tinha nove anos.
O silêncio iletrado da minha mãe foi uma morte.
Eu me pergunto se ela ainda trabalha nos campos dele.
Sua irmã, zelosa mas fria como a neve,
me deu um quartinho na casa dela, debaixo
da escada com os servos irlandeses, que me odiavam
pela fatal falha na minha genealogia.
Pela primeira vez na minha vida estou em casa
nesse grupo de estudiosos, minha primeira família.
Aqui, os papéis de parede me acolhem em cada cômodo
e os espelhos veem a mim, não meu pedigree.
Minhas irmãs, Jerusha, Emilia, Elizabeth…
Mas o silêncio inescrito de mamãe é uma morte.

* Ambos os poemas estão em poetryfoundation.org e fazem parte, respectivamente, dos livros Carver: A Life in Poems e Faster Than Light: New and Selected Poems.

***

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Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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