Alpendre

Esta não é mais uma reflexão de fim de ano

Sala da Fé, Museu Theo Brandão (Maceió-AL). Março / 2020. Foto: Sara Basan

Por Sara Basan – 28/12/2020

Crença e fé não são palavras sinônimas. Embora estejam inter-relacionadas, possuem suas diferenças. Acreditar piamente que algo acontecerá é alimentar uma crença; entregar o mais profundo desejo de maneira reflexiva sobre o acontecimento é depositar a fé. Há crenças que nos limitam, aquelas que acreditamos ser verdades absolutas, e nos impedem de evoluir. Já a fé, como disse Gilberto Gil em suas redes sociais, está na própria negação, “(…) é aquela que abraça a tudo, que é o grande existente inominável (…). E na fé se ancora a devoção.

Em um passado não muito distante, dias antes de vivermos momentos de distanciamento social para conter o avanço do vírus que atingiria milhões de pessoas, fiz uma visita a um museu. Passeando pelas exposições, numa sala chamada Sala da Fé, estavam partes representativas do corpo humano esculpidas artesanalmente, compondo uma escultura impossível de passar despercebida. Eram ex-votos.

Esculpidos em forma de madeira, parafina, mármore e outros materiais, ex-votos são uma espécie de presente que o fiel dá para seu santo de devoção ao alcançar uma graça, uma cura. É uma maneira de materializar o agradecimento diante de algo invisível como a fé. Ex-votos são considerados verdadeiras manifestações artístico-religiosas e são objeto de estudo de inúmeros pesquisadores da arte e da cultura Brasil afora.

É com a representação dos ex-votos que se confirma o fato de que a arte popular e a arte religiosa se misturam e ensinam. Não há espaço para intolerância. Cada ex-voto carrega uma história em atos que só o fiel pode explicar. Só você sabe da luta, dificuldades e conquistas encontradas pelo seu caminho para chegar em algum lugar.

Dias antes deste Natal, indicada por uma amiga, ouvi uma psicóloga falar sobre um estudo recente sobre o luto, que diz que para cada morte há, em média, nove pessoas enlutadas. De janeiro pra cá já são mais de 15 milhões de pessoas vivendo o luto de uma perda estranha. Um cálculo doloroso que vai além dos números exatamente porque essa estranha partida não permite um consolo, um abraço de conforto, o último adeus. É difícil para quem fica.

Estamos fazendo a transição de um ano estranho para um novo ano incerto, onde não temos controle sobre crenças. É diante de um cenário caótico que cientistas do mundo inteiro têm trabalhado incessantemente para que o povo alimente sua fé e acredite num futuro onde o abraço deixe de ser um perigo e volte a ser um afago.

Paralelo a isso, não podemos esquecer que autorresponsabilidade não é só uma palavra longa e bonita. É urgente – pra ontem – pensar que nossas ações individuais refletem coletivamente e podem ser decisivas na vida de outras pessoas.

Últimos dias de dezembro, culturalmente o mês da reflexão e comercialmente período de festas e grandes encontros. Que ao celebrarmos as graças não esqueçamos das perdas. Gentileza e respeito são os melhores presentes.

Palavra também.

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Sara Basan é entusiasta das palavras desde sempre. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas, é redatora e apaixonada pela escrita afetuosa e criativa.

1 comentário em “Esta não é mais uma reflexão de fim de ano

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