Colaboradores Stéfany Caldas

Você se permite ser vulnerável?

Arte: Stéfany Caldas

Por Stéfany Caldas – 08/12/2020

É como se fosse um portal reluzente separando sua vida em duas. Já reparou? Algo que a gente quase que instantaneamente aprende quando inicia a vida profissional é que a nossa capacidade de viver de forma mais objetiva possível neste outro ambiente seja um sinal de extrema competência.

Você certamente já se comportou ou ouviu de alguém que não está em condição de faltar pra resolver uma situação familiar porque não vai pegar bem, ou até porque o motivo não seria apontado como “racional”. A gente rapidamente capacita-se para separar, a ter vidas distintas. Quanto menos a sua esfera familiar e afetiva transparecerem no ambiente em que você passa a maior parte do seu dia, mais produtivo você pensa que estará.

É por isso que, nesta época em que necessitamos nos adaptar ao home office, com frequência viralizam flashs em que crianças, bichos ou qualquer outro ruído sejam captados pelas webcams. Embora nos sintamos constrangidos ao perceber que algo rapidamente saiu de nosso controle, o que nos torna humanos toca outras pessoas.

O que quero mencionar ao destacar esses pontos?

É que talvez uma de nossas características mais bonitas, aquela que fielmente retrata o que somos, seres de carne e osso e um bocado de sentimentos, ao invés de serem encaradas como potencialidades e importantes chaves de conexões e autoconhecimento, estejam diariamente sendo varridas para debaixo do tapete de nós mesmos. Estou falando (também) do que nos torna suscetíveis aos acontecimentos advindos do meio que nos cerca e de cada um de nós.

Sim, aprendemos a prever o tempo, a alta da bolsa, o preço das mercadorias, a estatística dos jogos, o desempenho das nossas máquinas e dos automóveis, mas ainda estamos resistindo a aprender a olhar para dentro de nós mesmos. Ignoramos dores físicas, preocupações, gatilhos e buscamos camuflar aquilo que nos faria ainda mais fortes a partir do autoconhecimento: enxergar e abraçar a nossa vulnerabilidade.

(Sobre isso, recomendo também um excelente documentário chamado “O poder da intuição”, contado em primeira pessoa pela ex-funcionária da ONU, a islandesa Hrund Gunnsteinsdottir, que teve um colapso nervoso pelo excesso de trabalho e desconexão com o sinais apresentados pelo próprio corpo).

A reflexão inclusive lembrou-me um episódio de “no brain no gain”, podcast do Wesley Barbosa, em que ele revela como lida com a sua vulnerabilidade: compartilhando. Wesley conta que, quando sobe num palco para uma palestra, divide com o público que está nervoso, ou que o nervosismo é parte da felicidade em estar ali. Ele opta por não camuflar o que está sentindo, ainda que seja algo que possa torná-lo vulnerável perante os presentes.

E o que é mais interessante em situações como essa? É que é sinalizando o nosso desconforto que a gente pode buscar formas de lidar com ele. É quando a gente aciona o botão que gera intimidade entre nós e outros seres humanos. Alguém se identifica, te enxerga e se enxerga, você e eu deixamos de ser completos estranhos.

Pessoalmente, confesso que não me sinto confortável com primeiros encontros. Percebo que a combinação de coisas que está envolvida nesta atmosfera me deixa um pouco nervosa e inclusive compreendo que isso se trate de algo perfeitamente normal na terra dos seres com emoções. Certa vez, conversando com um amigo, contei que o alguém que eu estava interessada havia me convidado para um encontro, e que eu aceitei, mas não deixei de mencionar, de forma bem humorada, o tal desconforto.

A reação do amigo foi me chamar a atenção pela informação “confidencial” que eu havia disponibilizado. Disse que era como confessar um defeito que poderia minar o interesse do “crush”. Aconteceu justamente o contrário. Ao falar sobre a minha particularidade, ela deixou de ser um “problema”, eu retirei de mim qualquer interesse em esconder essa “imperfeição” com intuito de impressionar. O resultado é que tudo ocorreu de forma divertida e espontânea.

Alguém que também me inspira quando o assunto é afeto, relacionamentos e compreensão sobre a imprevisibilidade dos acontecimentos é Milly Lacombe. Isso foi o que ela escreveu na Revista Trip em 2015:

(…) aprendi que o ser humano é mais bonito quando permite se mostrar vulnerável; e que a perfeição não é sedutora porque é irreal. (…) entendi que é justamente quando a gente consegue exibir fraquezas que podemos nos conectar com o outro de forma sincera e profunda, nos permitimos ser verdadeiramente amados e entendemos como estamos todos tão intensamente ligados.

E é esse o conselho que, a partir das minhas experiências e de demais seres humanos vivendo na Terra, que eu divido com você hoje, querido leitor: não tenhamos medo de sermos vulneráveis. Ser de verdade é a chance que temos de criar conexões verdadeiras. Ser vulnerável é o que faz cada um de nós termos a chance de mostrar a nossa autenticidade, e antes mesmo de criar laços com outros seres humanos, conhecer melhor a nós mesmos, o que, você há de concordar, é uma ferramenta e tanto para viver nesse mundo.

Vulneráveis, então?

Grande abraço!

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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