Colaboradores Ricardo Escudeiro

Brasil, de Roger Reeves // Tradução de Ricardo Escudeiro

Foto: Julio Jimenez

Roger Reeves tem poemas publicados em diversos periódicos, como Poetry, Plowshares, American Poetry Review, Boston Review e Tin House, entre outros. A poeta Kim Addonizio selecionou “Kletic of Walt Whitman” para a antologia Best New Poets 2009. Ele recebeu os prêmios NEA Fellowship 2013 e Ruth Lilly Fellowship (da Poetry Foundation, em 2008), além de diversas bolsas de apoio. Obteve o doutorado pela Universidade do Texas, Austin e atualmente é professor assistente de poesia na Universidade de Illinois, Chicago. Seu primeiro livro foi King Me (Copper Canyon Press, 2013).


Brazil

I will begin with braces
strung across a man’s teeth
as a downed kite might
string itself across four lanes
of a seven-lane highway
and bid a barefooted child
to wade into evening traffic
and slip. I will not focus
on the wasp at the window,
the cat’s white hair stretching
along this orange peel,
or even the train’s green breath,
its asthmatic clack
upon these arthritic tracks
that turn every head
into a cautious metronome. No,
I will not focus upon the spines
of the men walking these rails,
yelling cerveja, coca-cola, agua,
these men who bare no resemblance
to ghosts but even as they pass
disappear into motes and motes
of dust most of us are too busy
to notice falling
inside a sleeping child’s mouth.
I will focus all my attention,
now, on the man with braces,
asking me if I am a member of the CIA.
Have I come to infiltrate
the black movement.
This man whom I have peeled
two oranges for
since this train left Rio de Janeiro
and, because his hands were full,
placed each quartered wedge
in his mouth. What are you here for?
The children waiting for bottles
of water to be thrown from each car.
The bee above his head, the kites
drifting from the hills, the white puffs
of cloth, slew-footed, wading into the sky
like a wasp drunk on insecticide.
Those are suicide notes, he says, the kites.
Soon there will be gunfire,
drugs, and dead children head-to-foot
along the paves and unpaved roads
leading in and out of this favela.
Do you have this in America?
This, meaning kites. This, meaning
children. This, meaning winter rain
unable to flow into the gutters
because of bodies lining the streets.
I think to tell him of Katrina,
but I say nothing of water-
melon vines growing around the dark
in graves from North Carolina to New Jersey,
the bomb, MOVE, the symphony
hall of atrocities in which every seat is full,
but is this the meaning of diaspora?
I come with the dead tucked in-
to my duffle, my genocides
folded into my wallet and you
come with yours and we shout
across the chasm of this train car
comparing whose dead sing louder
or more often or now.
Is this Africa: a slit trench
and a split lip, a photograph
of a police chief smoking a cigar
as the ear of a dead child catches his ash.
Why isn’t my hand
dropping these slices of orange
onto your tongue, Diaspora?
Why have I come to Brazil, Brother?
To infiltrate the black movement.

Brasil

Vou começar com o aparelho
esticado nos dentes de um homem
do jeito que uma pipa caída poderia
se estirar por quatro das faixas
de uma rodovia de sete
e convidar uma criança descalça
a zanzar no trânsito de fim de tarde
e escorregar. Não vou focar
no marimbondo na janela,
no pelo branco de gato se enroscando
nessa casca de laranja,
nem no bafo de menta do trem,
esse estalo asmático
em cima desses trilhos com artrite
que transforma cada cabeça
em um metrônomo atento. Não,
não vou focar nas costas
dos homens andando nessas vias,
rogando cerveja, coca-cola, água,
esses homens sem semelhança alguma
com fantasmas, mas que do jeito que passam
desaparecem em pequenos punhados
de poeira que a maioria de nós está muito ocupada
pra notar caindo
dentro da boca de uma criança adormecida.
Vou focar toda minha atenção,
agora, no homem com aparelho,
me perguntando se eu sou um agente da CIA.
Se eu vim pra me infiltrar
no movimento negro.
Esse homem pra quem eu descasquei
duas laranjas desde
que esse trem saiu do Rio de Janeiro
e que, porque as mãos estavam ocupadas,
colocou cada um dos quatro gomos
na boca. Pra que você está aqui?
As crianças esperando que garrafas
de água sejam jogadas de cada carro.
A abelha acima da cabeça dele, as pipas
decolando dos morros, os tufos brancos
de pano, trôpegos, zanzando no céu
igual um marimbondo chapado de inseticida.
Aquilo são cartas de suicídio, ele diz, as pipas.
Logo vai ter tiroteio,
drogas, e criança morta dos pés à cabeça
ao longo das ruas de terra e das asfaltadas
que levam pra dentro e pra fora dessa favela.
Vocês têm isso na América?
Isso, querendo dizer pipas. Isso, querendo dizer
crianças. Isso, querendo dizer chuva pesada
impossibilitada de escorrer pelos bueiros
por causa dos corpos enfileirados nas ruas.
Penso em contar a ele sobre o Katrina,
mas não digo nada das plantações
de melancia se espalhando na escuridão
em sepulturas da Carolina do Norte até Nova Jersey,
a bomba, MOVE, a sala
de concertos e de atrocidades com cada assento ocupado,
mas é esse o significado de diáspora?
Eu venho com os mortos enfurnados
na minha bolsa, meus genocídios
dobrados dentro da minha carteira e você
vem com os seus e nós berramos
através do abismo desse vagão
comparando os mortos de quem cantam mais alto
ou com mais frequência ou agora.
Será que é isso África: uma trincheira aberta
e um lábio rachado, a foto
de um chefe de polícia fumando um cigarro
e a orelha de uma criança morta de cinzeiro.
Por que não a minha mão
derramando essas fatias de laranja
na sua língua, Diáspora?
Por que eu vim pro Brasil, Irmão?
Pra me infiltrar no movimento negro.

***

*o poema está em poets.org
**agradeço à poeta Mariana Godoy por me indicar esse autor

***

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Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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