Colaboradores Glória Damasceno

O mundo é uma aldeia

Arquivo Pessoal / Márcio Vargas

Por Glória Damasceno – 17/11/2020

A Van, que é minha amiga, e também amiga do Márcio, o Márcio que por sua vez é amigo da Florzinha, que é minha conterrânea de coração, porque tanto eu quanto ela não nascemos em Arapiraca — para (ainda e) provável surpresa de alguns amigos de uma e da outra.

Pois bem! Esta prosa, como todas as outras, fala sobre conexões: de pessoas, de projetos e de olhares que ora cruzam as molduras das janelas das casas, dos automóveis engarrafados, ora cruzam as janelas on-line de computadores, porque foi assim que conheci o Márcio Vargas, que conheceu a Maria do Socorro Cruz da Hora Lima (a Florzinha), que me conheceu dia desses — a “Glorinha”, amiga da Vandreza Freiria.

Casa+55

(Foto: Márcio Vargas em sua casa “show room” na Alemanha l Arquivo Pessoal)

Também num dia desses, em 2019, o designer de interiores, Márcio Vargas (45), se viu diante de uma oportunidade única: que tal morar em Mannheim, no Sul da Alemanha? O emprego do marido, o Thiago Caixeta, tinha lhes aberto esta porta. À época, os dois moravam em São Paulo e empacotaram tudo. Toda a mobília foi despachada em um navio (a empresa de Thiago bancou toda a mudança), e dessa guinada na vida do casal nasceu a ideia de uma casa que atravessou o oceano, uma casa galeria, uma casa “show room”: Casa+55, a Casa Brasileira na Alemanha. (Eureka!)

Mas, vem cá!, que significa esse número? O código Discagem Direta Internacional (DDI) do Brasil é, tcharam!, 55. Todo país aliás possui seu próprio código de discagem para completar uma ligação estrangeira, daí o 55, o nome do projeto e mais uma literal conexão.

“Eu trouxe a minha casa, porque primeiro existia o incentivo (financeiro) e quando eu trouxe tudo isso, eu trouxe as impressões do meu país, as minhas memórias junto, a minha cultura. A proposta não era só apresentar o meu eu, mas também um pouco do outro, o Brasil. A minha casa aqui lançou um outro olhar sobre mim. Parece que eu estou em São Paulo (por dentro)”, explicou Márcio e arrematou: “As casas alemãs em geral não têm quadros que mostram personalidade. As casas são iguais.”

Casa inaugurada, agora era hora de apresentar para uma pessoa em especial. O designer buscou o Lufe Gomes do canal no Youtube “Life by Lufe” — “um fotógrafo viajante que adora decoração”. Na descrição em seu canal, Lufe diz ainda: “Sempre me interessei em conhecer onde as pessoas VIVEM e não somente a decoração de onde elas moram.”

Maravilha! Era ele mesmo a pessoa com a qual Márcio queria compartilhar seu projeto.

Com a exposição no canal, a Casa+55 conquistou admiradores do trabalho do designer “paranaense de nascimento, gaúcho de coração e paulistano de convicção”, como orgulhosamente Márcio se define. Entre os novos seguidores estava a Florzinha, que não só partilha do mesmo apreço por decoração, como também faz parte de um grupo no WhatsApp (uma espécie de fã clube do Lufe em que se fala de tudo) para o qual Márcio foi convidado a ser membro. A partir daí, a amizade entre os dois germinou, e o projeto “Casa da Flor” também!

Casa da Flor

O Válter Vicente de Lima (69), marido da Florzinha, certa vez deu a ela uma boneca com os cabelos iguais aos dela, e sendo assim suponho então que eram pretos e encaracolados, do tipo que quando secam, ganham o mundo. O Válter costumava chamar a esposa de “Flor”, o que a levou a apelidar a boneca de “Florzinha” — essa inanimada e gentil representação da esposa.

Contudo quem acabou sendo batizada (mais uma vez) foi a Maria do Socorro da Hora Lima (56), porque de lá pra cá quem se tornou a Florzinha da casa foi ela mesma! E não só da casa deles, mas a Maria do Socorro é a Florzinha do mundaréu de gente que a conhece. (De certa forma, a boneca não é tão desprovida de vida assim, concordam?!)

(Foto: “Florzinha” e seu esposo, Válter / Arquivo Pessoal)

A Flor nasceu em Recife (PE), e foi viver em Alagoas quando tinha apenas 2 anos de idade — fato que lhe permite se considerar arapiraquense. A família toda — composta pelos pais e uma prole de 6 filhos até então (depois tiveram mais 2) — mudou-se para Arapiraca por conta do trabalho do “Bira”, o pai da Florzinha, que era técnico de refrigeração em Recife. O Bira enxergou na demanda por seus serviços não só em Alagoas, mas também nas cidades circunvizinhas de Arapiraca, uma oportunidade de melhorar as finanças.

“Papai progrediu muito aqui. Mamãe costumava dizer que éramos ‘os negrinhos atrevidos’, porque o patamar financeiro que alcançamos era muito bom”, relembrou Florzinha. “Estudamos nas melhores escolas, tivemos uma educação muito boa.”

Além da educação digna de destaque em sua fala, foi também no interior de Alagoas que a Flor encontrou seu grande parceiro há 31 anos. Ele era amigo da família dela, e nesse tempo a Florzinha queria alguém “pra casar e ficar”. “O Válter é um homem muito honrado! Sempre me teve como a base de nossa casa. O pai dele era assim com a mãe dele”, pontuou. Finalmente ela tinha encontrado um cara que lhe dava a segurança de um relacionamento de mútuo respeito, e compromisso sério.

Nas vésperas de um feriado, sabendo que ele tinha interesse por ela, Florzinha ligou para o Válter, que estava em Caruaru (PE), e disse que gostaria de ter uma conversa com ele. Dessa prosa, e viagem de 15 dias, voltou casada, até porque quando chegou à rodoviária, ele estava lá à espera com a família dele inteira para receber Florzinha. “Ele já tinha dito a todo mundo que ia casar comigo”, riu.

Desde então ela e o Válter (nascido na famosa Rua do Sol de Arapiraca) vivem no bairro São Luiz II. Juntos criaram 5 filhos e construíram a casa em que têm morado ao longo do casamento dos dois, moradia essa ainda em processo de acabamento, uma vez que logo no início da construção o pedreiro (depois de ter recebido pagamento adiantado) abandonou a obra e o casal por conta própria passou a levantá-la tijolo por tijolo, a passos mais lentos. Atualmente só falta alguns detalhes, como a pintura, as portas, e a decoração.

Essa é a história que o designer de interiores, Márcio Vargas, soube em uma dessas chamadas de vídeo em grupo dos fãs do Lufe. No outro dia, o Márcio entrou em contato com a Florzinha, e voluntariamente ofereceu um “projeto de decoração” para o andar de baixo da casa dela. Florescia a “Casa da Flor”, mas não sem antes bater um papo.

“Eu me deparei com a história dela, e eu gostei daquela senhora de atitude. Quero ter alguma coisa de Alagoas, porque eu tenho um amigo de lá, e quando eu a ouvi falar, com aquele sotaque característico, era o sotaque dele que eu estava ouvindo, e por gostar muito desse meu amigo, e admirá-lo, eu quis saber dela ainda mais. A partir daí eu descobri que ela tinha acabado de construir uma casa e estava vivendo esse sonho (o de finalizar)”, disse Márcio. “A entrevistei como sempre faço, porque o meu trabalho é feito para pessoas de verdade. Eu penso casas de verdade. Eu quero trazer afetividade, a história pessoal de cada cliente.”

(Foto: Arquivo Pessoal / Márcio Vargas)

O encontro deles dois — Márcio em Baden-Württemberg, Florzinha em Alagoas — assim como o de nós três — eu em Illinois (EUA) — é um dos lados extremamente positivos do mundo conectado em que estamos atravessando.

Hoje de alguma maneira as fotografias estão menos incompletas, e as casas dos sonhos das pessoas estão tornando-se realidade, como a Casa da Flor que logo, logo ficará pronta e vai poder receber o Márcio para tomar um café na cozinha que ele ajudou a sonhar, e a Flor vai visitar um pedaço do Brasil na Alemanha para falar dentre outras coisas, sobre o livro de crônicas, poesias e fábulas dela, que será lançado em fevereiro de 2021, o “Por trás das janelas”. Vai ser tudo ainda mais bonito, e florido.

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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