Alpendre poesia

Dois poemas de Jefferson Turibio

Imagem: Pixabay / Reprodução.

Cecília

Conheci uma menina chamada Cecília
Ela que tinha um enorme gato
E também tinha uma cadeira caríssima
Dessas de escritório, sabe?
Conheci uma menina chamada Cecília
Ela tinha um enorme gato
Uma cadeira caríssima dessas de escritório
E em seu quarto, belas cortinas azuis
Dançavam por trás das janelas
Dessas de apartamento, sabe?
Conheci uma menina que tinha um gato
E ela costumava abrir a porta do quarto
Pois o bichano gostava de sair
E escalar montanhas, sabe?
Quando eu conheci essa menina
Eu descobri que ela tinha um gato,
Uma cadeira caríssima e belas
Cortinas azuis, mas foi só depois
De conhecê-la que eu descobri
Que quanto mais pobre se é
Mais bichos se tem em casa.

*

RENÚNCIA POR LIVRE E ESPONTÂNEA PRESSÃO

Não fazer questão
Talvez essa tenha sido a atitude mais tomada pela Minha Mãe.
É antiga essa mania de abster-se de algumas situações familiares
É hereditário, eu diria.
Minha Avó deve ter aprendido com a Minha Bisa
Minha Mãe, com a Minha Avó
E minhas tias também
(Algumas Tias, uma ou duas).

Minha Avó carregou consigo toda essa história
De não fazer questão.
Acho que ela tinha medo de alguma coisa
Preferia sempre dizer
— Façam o que vocês quiserem, por mim tudo bem!
Morreu fazendo disso hábito eterno
Encantador de seu corpo.

Minha Mãe volta e meia segue a mesma sina
Está sempre à espreita para falar a mesma expressão
— Façam o que vocês quiserem, por mim tudo bem!
E isso me irrita!
Gostaria que Minha Mãe ao menos uma vez
Fosse contra a alguma atitude que dissesse respeito
À sua vida e ao seu bem-estar.

Acho que minha Mãe (assim como minha Avó
E algumas Tias) tem medo de perder
Ou de magoar seus filhos por alguma razão.
Talvez sair para trabalhar todos os dias
Deva criar nas mulheres uma espécie
De culpabilização.
Daí a razão de nunca fazerem questão
Pela própria vontade.

A sina das mulheres da minha família
É aceitar ser como não são
Sempre desprovidas de mudança
Acabam morrendo cheias de palavras
Entupindo as veias do coração.
Tudo para evitar certo atrito
Que nem mesmo elas sabem qual.
Mas não seria em suas vidas
Os maiores atritos os seus filhos?
Afinal, de cesárea ou parto normal
Também nunca fizeram questão.

***

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Jefferson Turibio (1995), sagitariano, natalense, é estudante das Letras e poeta. Atualmente está produzindo seu primeiro zine de poemas, projeto totalmente independente, que visa ser lançado em dezembro deste ano. Foto: Alessandra Dutra.

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