Colaboradores Stéfany Caldas

Com quanta desconsciência social se faz uma pandemia?

Foto: Reprodução.

Por Stéfany Caldas – 02/11/2020

Em texto publicado no último mês, Papa Francisco refletiu sobre como o capitalismo falhou no momento de crise de saúde que estamos enfrentando. Ou melhor, o pontífice ressaltou que o modelo econômico que vivemos não apresenta soluções para as questões essenciais da humanidade.

Li e manifesto minha concordância com sua fala, pois também tenho refletido sobre o assunto ao longo destes meses.

Lembram como nos comportamos lá no início? Enumeramos os pontos que nos trouxeram até aqui, vimos que não estamos enfrentando essa doença com os mesmos recursos, houve a necessidade da criação e de pressão por auxílio emergencial, afinal a partir de onde se vive, e em que condições se vive, os riscos em torno de contaminação se agravam, de modo que as conclusões gerais não deveriam ser diferentes – a desigualdade social nunca esteve tão na nossa cara.

Mesmo as grandes empresas também foram em busca de participação do estado para não diminuir salários ou demitir seus funcionários, outro ponto que deveria ser refletido por quem busca as privatizações. Aprendemos que trabalhar de casa é uma opção viável sim. Aprendemos que nove horas diárias na empresa, fora as horas de trânsito não significam que renderemos mais do que poderemos oferecer de nosso lar, em que podemos acordar, comer e nos acomodar melhor.

Vimos que a nossa relação com a alimentação anda desregulada. Comemos industrializados demais, comemos carnes muito além do necessário, terceirizamos os nossos momentos de descanso mediados por telas e não sabemos como lidar com o tédio. Só que como nos falou sabiamente a artista Mariah Carey, crescemos acreditando que o sucesso ou o fracasso de nossa condição é estritamente pessoal e não social, relacionada ao sistema em que estamos inseridos.

A população aderiu ao discurso de que somente voltando a trabalhar e, consequentemente, salvando a economia, estaremos também alcançando a própria salvação. Age como quem desconhece completamente que é dever do estado assistir aos cidadãos. E, sem saber, luta contra si mesma e aquilo que lhe é de direito. Saúde, segurança, cultura, educação.

Parece não notar que a alimentação saudável, não abarrotada de sal e açúcar, que não lhe traga prejuízos no presente e no futuro, seria possível se tivéssemos um outro tipo de modelo de produção de alimentos, que parássemos de regulamentar tantos agrotóxicos e começássemos a pensar com seriedade em agricultura ecológica e sustentável.

Que a conta não é exclusiva das mães quando se fala na responsabilidade da criação das crianças, mas, é dever de todos, construir uma rede segura de apoio para que todas as mulheres possuam condições de ter uma vida profissional que almeje, assim como os pais.

Acontece que tudo isso que eu falo em cada parágrafo aqui pode ser descrito como: direitos humanos. Aquilo que deveria ser de todos, mas começou a ser taxado. Aquilo pelo qual todos deveríamos nos unir para cobrar aos que elegemos para tratar de interesses coletivos, mas foi transformado em “coisa de comunista”. O que deveria ser dito pelo papa e ecoar na boca de todos os cristãos, mas acontece que, assim como emprego, renda, alimentação, saúde e moradia, a interpretação de texto também deixou de ser estimulada aos cidadãos.

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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