Colaboradores Cosme Rogério Ferreira Ensaio

[ENSAIO] A utopia queer de Charlotte-peixe-borboleta

Imagem: Reprodução

Por Cosme Rogério Ferreira – 30/10/2020

Desde cedo aprendemos na escola uma classificação de ordem biológica que remonta ao período aristotélico-sistemático da filosofia grega antiga: a divisão do reino animal entre os vertebrados, definidos assim por terem uma coluna vertebral, e os invertebrados, definidos por não terem esse conjunto de ossos. Os vertebrados são divididos entre peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos – categoria que inclui os seres humanos. O sistema taxonômico de Lineu, poeta e naturalista do século XVIII, inaugurou a classificação científica e a nomenclatura binária, aquela que normatiza a atribuição de nomes a cada espécie, formando-os por duas palavras: o termo genérico e a descrição específica. Por exemplo: em Homo sapiens, Homo designa o termo genérico, e sapiens, o seu descritor específico. Vigente ainda hoje nas salas de aula, esse modo de dividir os seres vivos em gêneros, espécies, famílias, ordens, classes e reinos se baseava nas parecenças visuais externas e internas entre os seres, até que o desenvolvimento da teoria da evolução, a partir do século XIX, o colocou em xeque.

Na classificação filogenética, as espécies são distribuídas em “árvores da vida”, que exibem os seus antepassados comuns. Filogeneticamente falando, um grupo de espécies que derivam de um mesmo antepassado forma um clado. Essa perspectiva ajuda a compreender fatos aparentemente estranhos, como a forte relação de parentesco entre tiranossauros e galinhas, ou a hipótese levantada por cladistas sobre os peixes, subvertendo a “lei natural” e a “ordem científica”: é impossível desenhar um clado que abranja tudo o que denominamos “peixe” sem envolver aí um peixe-boi ou uma ratazana. Então, das duas, uma: ou os peixes não existem ou todos nós somos peixes (BARTHELS, 2016).

Esses fatos e especulações acima narrados são interessantes como dado acerca do modo como designamos e, consequentemente, compreendemos e identificamos os seres – seja do ponto de vista dos instintos e do senso comum, ou a partir de evidências científicas –, mas também como metáfora da condição humana, da “tarefa difícil de enxergar o visível”, como Tatiana Pequeno intitulou o prefácio feito para o livro Charlotte-peixe-borboleta, de Pedro Kalil (2016). Originalmente dramatúrgico, o texto compôs o monólogo Para lembrar eu solo, encenado pela primeira vez em 2013, com interpretação da atriz Sandra Albéfaro e direção de Cristina Tolentino. Transformado em texto literário, o conto começa com a protagonista refletindo sobre a relação entre as palavras e as coisas, ou melhor: entre os seres a quem genericamente chamamos de peixes e os nomes que damos para especificá-los: “Existe um monte de tipo de peixe que não é necessariamente peixe. Quer dizer, são peixes, mas são também uma outra coisa. Existe um tanto de peixes que não é só peixe. A gente é meio assim. A gente não é só a gente. Tem peixes que são ferramentas. Peixe-espada, tubarão-martelo. Um peixe que é uma espada. Um peixe que é também um martelo” (KALIL, 2016, p. 17).

Ora, os nomes têm, na cultura hegemônica, uma função de substancialização: dizer da coisa (ou do ser) o que a coisa (ou o ser) é. O nome é, portanto, parte da identidade da coisa (ou do ser). Essa tradição remonta à metafísica em suas origens pré-socráticas, passando pela noção aristotélica de verdade como correspondência e pela questão dos universais da escolástica medieval. No entanto, o modo de pensar substancialista – o mesmo do senso comum e do racismo, como bem advertiu Pierre Bourdieu (2003) – faz com que atividades ou preferências próprias de certos indivíduos ou grupos de uma sociedade sejam tratadas como propriedades essenciais, como inscritas numa espécie de essência biológica ou cultural. Charlotte, oposta a esse modo de encarar o mundo e a si mesma, nos faz repensar os limites de nossas tentativas de classificação, a busca por se enquadrar o “incabível”, assim como o debate hodierno entre taxonomistas tradicionais e cladistas acerca do que é ou não um peixe nos ilustra.

Essa visão relacional do mundo de Charlotte remete à teoria queer, que questiona conceitos comumente cristalizados como gênero, sexo, sexualidade e linguagem. Em meados do século passado, Simone de Beauvoir (1980) demonstrou como a noção de gênero e suas relações são historicamente construídas. Monique Wittig (2017), falando do pensamento straight no início dos anos 1970, denunciou como a naturalização da heterossexualidade, na condição de pressuposto para basear qualquer sociedade, fez produzir linguagens e discursos que se encaixam, se reforçam e se engendram uns nos outros e, por conseguinte, produzem uma leitura científica da realidade em que os seres humanos são tidos como invariáveis. Na perspectiva queer de Judith Butler (1999), que vem sendo desenvolvida desde os anos 1980, o conceito de gênero não deve ser encarado como um ponto estático, amparado somente pela biologia, mas como uma construção cultural inacabada, realizada ao longo do tempo, de modo inconstante e contextual. Butler se apropria de um termo do teatro para afirmar que o gênero é um ato performativo, de improvisação, e que, na condição de um construto cultural, é dependente da realidade que nos cerca. Assim, diferentes gêneros em diferentes situações são performados para se enquadrarem em diferentes ambientes sociais. Nas metafóricas palavras de Charlotte: “Peixes são aqueles que são e, ao mesmo tempo, se permitem ser outro ou outra coisa. Ou ao menos é assim que vemos os peixes. Para os peixes, eles são somente peixes. Não devem ser mais do que peixes. Talvez o peixe-palhaço veja o tubarão-martelo como algo aterrorizante. Talvez. Mas eu acho que o peixe-palhaço não reconhece o tubarão como martelo. Ele só é. Mas o peixe-palhaço costuma fugir do tubarão-baleia. Eu acho que o peixe-palhaço não pronuncia, nem para si mesmo, que ali tem um tubarão-martelo. Nem sempre a gente nomeia aquilo do que fugimos” (KALIL, op. cit., p. 18-19).

Ora, nessa última frase, Charlotte fala de nosso medo em não chamar o que tememos pelo nome. É assim na saga Harry Potter, em que o vilão Voldemort é frequentemente referido como “Você-Sabe-Quem” ou “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”; é assim na cultura popular do Nordeste, em que há pessoas que não pronunciam a palavra “peste”, por ser um mau agouro capaz de atrair a doença; e tem sido assim no atual e distópico contexto político nacional brasileiro, em que cidadãs e cidadãos que enfrentam o governo neofascista têm evitando pronunciar o nome daquele que cruza a faixa presidencial no peito, substituindo-o por “Coiso” e outros apelidos considerados de caráter mais eufêmico que o seu nome próprio.

Nomear é afirmar. E Charlotte se afirma em sua abertura e complexidade. “Quanto a mim, meu primeiro nome é Charlotte. Ou sou Charlotte. Ou apenas sou. Apesar de Charlotte ser uma Carlota que não conseguiu tradução. Eu não consegui explodir. Charlotte é como me chamam” (Ibid., p. 19), diz a protagonista. Pequeno observou que o nome dado à personagem é “como que inspirado pelo protagonismo histórico de Charlotte Wilson na elaboração do texto e do discurso anarquista e dos lugares do feminino no início do século XX” (PEQUENO in KALIL, op. cit., p. 10). A personagem não foi “Charlote-contadora. Charlotte-professora. Charlotte-cozinheira. Charlotte-peixe” (Ibid., p. 18). Mas se faz Charlotte-peixe-borboleta: ao mesmo tempo um peixe e uma borboleta, que nada ou voa, e que corre sempre o perigo da rede – de ser enquadrada – na água ou no ar.

Observe-se que o uso do hífen é um traço marcante ao longo do texto, que destaca o mesmo-diferente que Charlotte-peixe-borboleta é (e/ou não é): “O peixe que é a mesma coisa, mas diferente. Porque é peixe e é borboleta. Ele é o mesmo-diferente. Que não esquece. Ele é o mesmo que outro. Charlotte-peixe-borboleta” (Ibid., p. 21). Charllote-queer?

Charlotte-peixe-borboleta, que não esquece, se constitui num corpo-memória. Corpo-lugar-de-esperança. Corpo-luz-em-meio-à-treva: “Nunca tive medo do escuro. Já não é mais tempo para ter medo da luz” (Ibid., p. 24). Mais adiante: “Mas a luz. O corpo duro. Esticado. Frio. [pausa.] Mas a luz. Mas há luz” (Ibid., p. 25). Corpo-hifenizado, corpo-nó-de-relações, corpo-território-sonho: “Esse corpo há de se tornar assim tão-somente-um-corpo-meu. Esse corpo ungido de todos os corpos do mundo, mas tão-somente-um-corpo-meu” (Ibid., p. 28).

Corpo-utopia, corpo-potente-de-ser, como um casulo, uma crisálida, símbolo da possibilidade de renascer noutra forma de vida, de performar as possibilidades-de-ser: “Nascer de novo é sempre a minha utopia. Nasci, sobretudo, para esta utopia. [pausa.] Charlotte-peixe-borboleta. [pausa.] Charlotte-peixe-libélula. [pausa.] Charlotte-peixe-mariposa. [pausa.] Charlotte-peixe-marimbondo” (Ibid., p. 37). Charlotte-peixe-borboleta metaforiza essa utopia – utopia queer – pelo fato de não se rebelar contra a sua condição, mas por desfrutá-la – como peixe na água, como borboleta a voar.

Referências:

BARTHELS, Meghan. Actually, there is no such thing as a fish. Disponível em: https://www.businessinsider.com/fish-do-not-exist-2016-8. Acesso em: 27 set. 2020.

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo – fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1980.

BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. 4. ed. São Paulo: Papirus, 2003.

KALIL, Pedro. Charlotte-peixe-borboleta. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2016.

BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledged, 1999.

WITTIG, Monique. O pensamento straight. In: BRANDÃO, Izabel; CAVALCANTI, Ildney; COSTA, Claudia de Lima; LIMA, Ana Cecília Acioli. Traduções da Cultura: perspectivas críticas feministas (1970-2010). Florianópolis: EDUFAL, Editora da UFSC, 2017. p. 262-274.

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Cosme Rogério Ferreira é ator, poeta, professor e produtor cultural.

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