Colaboradores Ricardo Escudeiro

A Mãe-Libélula, de Denise Levertov // Tradução de Ricardo Escudeiro

Denise Levertov. Foto: Reprodução.

Denise Levertov (outubro de 1923 – dezembro de 1997) foi uma poeta e tradutora inglesa naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat. Ao longo de sua carreira produziu uma obra poética muito apreciada e que reflete suas crenças como artista e humanista. Sua poesia foi bastante influenciada pela educação informal e religiosa que recebeu, pelo período em que atuou como enfermeira civil em vários hospitais de Londres durante a Segunda Guerra e pela mudança, em definitivo, da Inglaterra para os Estados Unidos na década de 40, onde lecionou em diversas universidades e aproximou-se de poetas de Black Mountain. Seu engajamento social e político se intensificou ao longo das décadas de 60 e 70, com o início do envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã. Com Muriel Rukeyser e vários outros poetas, Levertov fundou o Protesto de Escritores e Artistas contra a Guerra do Vietnã. Ela participou de várias manifestações antiguerra em Berkeley, Califórnia, e em outros lugares, e foi presa em várias ocasiões por desobediência civil. Nas décadas seguintes, ela falou abertamente contra o armamento nuclear, a intervenção americana em El Salvador e a Guerra do Golfo Pérsico. Levertov traduziu uma série de obras, entre as quais a do poeta francês Jean Joubert. Ela foi editora de poesia da “Nation”, entre 1961-1962 e da “Mother Jones”, entre 1976-1978. Escreveu várias coletâneas de ensaios e crítica que abrangem poética, estética e política, entre as quais “The poet in the World” (1973), “Light up the Cave” (1981) e “New & Selected Essays” (1992). Alguns de seus principais livros de poesia: “The Double Image” (1946), “The Jacob’s Ladder” (1961), “O Taste and See: New Poems” (1964), “The Sorrow Dance” (1967), “To Stay Alive” (1971), “Candles in Babylon” (1982), “Oblique Prayers: New Poems” (1984), “The Life Around Us: Selected Poems on Nature” (1997), “The Great Unknowing: Last Poems” (1999)


The Dragonfly-Mother
  
 I was setting out from my house
 to keep my promise
  
 but the Dragonfly-Mother stopped me.
  
 I was to speak to a multitude
 for a good cause, but at home
  
 the Dragonfly-Mother was listening
 not to a speech but to the creak of
                                  stretching tissue,
 tense hum of leaves unfurling.
  
 Who is the Dragonfly-Mother?
 What does she do?
  
 She is the one who hovers
 on stairways of air,
                                         sometimes almost
 grazing your cheekbone,
 she is the one who darts unforeseeably
 into unsuspected dimensions,
  
 who sees in the water
 her own blue fire zigzag, and lifts
 her self in laughter
 into the tearful pale sky
  
 that sails blurred clouds in the stream.
  
 .
  
 She sat at my round table,
 we told one another dreams,
 I stayed home breaking my promise.
  
 When she left I slept
 three hours, and arose
  
 and wrote. I remember the cold
 Waterwoman, in dragonfly dresses
  
 and blue shoes, long ago.
 She is the same,
  
 whose children were thin,
 left at home when she went out dancing.
 She is the Dragonfly-Mother,
  
 that cold
 is only the rush of air
  
 swiftness brings.
 There is a summer
 over the water, over
  
 the river mirrors
 where she hovers, a summer
 fertile, abundant, where dreams
 grow into acts and journeys.
  
 Her children
 are swimmers, nymphs and newts, metamorphic.
                                                                 When she tells
 her stories she listens; when she listens
 she tells you the story you utter.
  
 .
  
 When I broke my promise,
 and slept, and later
 cooked and ate the food she had bought
 and left in my kitchen,
  
 I kept a tryst with myself,
 a long promise that can be fulfilled
 only poem by poem,
 broken over and over.
  
                                                 I too,
 a creature, grow among reeds,
                    in mud, in air,
 in sunbright cold, in fever
 of blue-gold Zenith, winds
 of passage.
  
                      Dragonfly-Mother’s
 a messenger,
 if I don’t trust her
 I can’t keep faith.
  
                                    There is a summer
 in the sleep
 of broken promises, fertile dreams,
 acts of passage, hovering
 journeys over the fathomless waters.
  
  
  
  
 A Mãe-Libélula
  
 Eu estava saindo da minha casa
 para manter minha promessa
  
 mas a Mãe-Libélula deteve-me.
  
 Eu ia discursar para uma multidão
 por uma causa justa, mas em casa
  
 a Mãe-Libélula estava escutando
 não um discurso mas o estalo de
                                      tecido esticado,
 tenso zunido de folhas se abrindo.
  
 Quem é a Mãe-Libélula?
 O que é que ela faz?
  
 Ela é aquela que plana
 nas escadas de ar,
                                    às vezes quase
 triscando sua bochecha,
 ela é aquela que imprevisível penetra
 em dimensões ignoradas,
  
 aquela que vê na água
 o próprio ziguezague de fogo azul, e 
 se alça em riso
 adentro do céu pálido de choro
  
 que veleja nuvens turvas na correnteza.
  
 .
  
 Ela sentou à minha mesa redonda,
 nós confidenciamos sonhos uma à outra,
 permaneci em casa quebrando minha promessa.
  
 Quando ela saiu eu dormi
 três horas, e levantei
  
 e escrevi. Eu me lembro da fria
 Mulher d’Água, com roupas de libélula
  
 e sapatos azuis, faz tempo.
 Ela é a mesma,
  
 de quem os filhos eram magros,
 deixados em casa quando ela saia para dançar.
 Ela é a Mãe-Libélula,
  
 esse frio
 é só a corrente de ar
  
 trazida pela rapidez.
 Há um verão
 sobre os rios, sobre
  
 os espelhos d’água
 onde ela plana, um verão
 fértil, abundante, onde sonhos
 tornam-se atos e jornadas.
  
 Os filhos dela
 são nadadores, ninfas e tritões, metamórficos.
                                                             Quando ela conta
 as histórias dela ela escuta; quando ela escuta
 ela te conta a história que você pronuncia.
  
 .
  
 Quando eu quebrei minha promessa,
 e dormi, e depois
 cozinhei e comi a comida que ela comprou
 e deixou na minha cozinha,
  
 tive um encontro romântico comigo,
 uma longa promessa que pode ser cumprida
 somente poema a poema,
 quebrada de novo e de novo.
  
                                                             Eu também,
 uma criatura, geminada entre juncos,
 na lama, no ar,
 no frio ensolarado, na febre
 do Zênite azul-dourado, ventos
 de transição.
  
                              Da Mãe-Libélula
 uma mensageira,
 se eu não confiar nela
 não posso manter a fé.
  
                                                     Há um verão
 no sono
 das promessas quebradas, sonhos férteis,
 atos de transição, jornadas
 planando sobre as águas insondáveis. 

*

*o poema está no livro “Candles in Babylon”, de 1982.

***

.

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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