Colaboradores Glória Damasceno

A Caixa de Fósforo do meu Avô

Foto: Arquivo Pessoal / Glória Damasceno

Por Glória Damasceno – 22/10/2020

Certa vez meu avô olhou para mim e disse que eu não tinha nascido pra’quilo, não! Ele se referia a enxada que golpeava a terra, enquanto eu sorria e ao mesmo tempo pressionava com o polegar direito o botão da câmera sem flash. Eis o contraste! De um lado uma mão visivelmente calejada por uma vida inteira dedicada ao campo, aos afazeres da Terra; de outro, uma mão também, e a seu próprio modo, encruada, afinal de contas, quem disse que escrever não dá calos? A diferença é que estes, por sua vez, são de relevos internos, e nascem pela presença ou ausência do que dizer sobre uma folha em branco — desesperadamente imaculada. Como disse Ariano Suassuna, “eu não gosto de escrever. Eu gosto de ter escrito”. Taí, pois, a razão do que falei há dois pontos finais.

Neste dia em que meu avô e eu nos reconhecemos mãos marcadas tive a ideia de fazer um ensaio fotográfico dele na “Caixa de Fósforo” — nome (gracioso) da roça dele e na qual até hoje costuma passar literalmente a maior parte dos seus 70 e outros anos. Um ensaio sobre o porquê dele acordar ao redor das quatro da manhã todos os dias, independente de ser final de semana, ou feriado.

Era 16 de janeiro de 2016 aliás, e sábado de tarde. De início, ele riu da minha proposta. Disse a mim que “lá na roça não tinha nada dessas coisas bonitas que eu estava acostumada a ver”. Essas coisas são as coisas de uma cidade grande, como Maceió (AL), e Córdoba na Argentina — lugares nos quais até então havia vivido um pedaço da minha vida. Sorte minha! Meu desejo era ver o que ao longo de toda minha infância e adolescência eu tinha tido apenas uma mera consciência do que tratava ser um agricultor, e do que esse homem do campo fazia ao redor daquela casa que sempre apontava no horizonte da serra em dias de chegada. Mas eu… Eu queria mesmo era saber e registrar meu avô “natividade”, o agricultor meu avô, assistir de camarote ele acontecer do jeito que ele mais gosta de estar no mundo. Eu queria viver pra ver esse momento em movimento, e vi.

De chapéu, camisa de mangas curtas, bermuda, botas e coberto de protetor solar, vovô desenhava-se de um lado para o outro sob o frescor da tardinha junto ao irmão, enquanto eu tentava me desvencilhar do esterco (tive a nada brilhante ideia de ir à roça de “rasteirinha”). Do alto de uma lateral de concreto, eu ia enquadrando em uma sequência de porta-retratos tudo que podia. Ora o irmão dele abastecia a coxia, ora ele vinha com um barril d’água contornando a montanha de farelo escondida debaixo de uma lona. Um carinho. Esse não podia faltar! Uma vez alimentados, era hora de abraçar quem garantia especialmente o leite do cuscuz da casa de minha avó. Meu olhar estava em êxtase diante da simplicidade em seu estado bruto.

Foto: Arquivo pessoal / Glória Damasceno.

“Isso tá ficando bom mesmo, minha filha?!”, indagou-se, e indagou meio-tímido, sorrindo, uma vez que o sol começava a ser pôr absurdamente frugal, amarelo, e depois — tão logo depois — azul-marinho. Ao retornarmos para casa, mostrei o resultado da minha ideia primeiro para vovó. Nas palavras dela, eu sou muito danada! Isto é, fiz um bom trabalho. Nas palavras dele, um abraço de recompensa pelo que ficou “bom mesmo”.

Senão fosse pelo meu avô, eu nunca diria que numa caixa minúscula — como costumavam ser e ainda são as de fósforo — em que cabe uma quantidade limitada de palitos de madeira, barbante encerado ou papelão, também há espaço pr’uma paixão imensa, como essa que alimentou e ainda alimenta uma família inteira, e um homem em toda sua própria complexidade.

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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