Colaboradores Oldemburgo Neto

Equilíbrio é (mu) dança

Foto: Pinterest.

Por Oldemburgo Neto – 08/10/2020

Pensar, às vezes, pode ser perigoso. Dá medo relativizar absolutos e assumir que tudo o que temos é quase nada, e o que pensamos saber, muito pouco. Regojizo-me daquilo que se experimenta, se vive, se aplica no olhar de quem não se atreve em julgar, não se apressa em condenar, não se coloca em nenhuma posição de juiz de ninguém, apenas porque reconheceu que, em miúdos, somos eternos aprendizes.

Muita gente diz que é difícil manter o equilíbrio. Eu que o diga, porque estou sempre em busca dele até mesmo quando escolho o caminho inverso, o desequilíbrio, o despedaçar que antecede o remontar, o auto-engano lúcido, o abraçar do meu eu com a agonia de agora, que me trouxe até a cadeira no canto da sala para que esse texto nascesse assim: meio desequilibrado. Penso que não existe equilíbrio estático mas sim dinâmico: oscilações e ajustes constantes. Quantas e quantas vezes me flagro, ininterruptamente, esperando pelo momento de estagnar em algum lugar seguro, sempre me defendendo de algo novo que possa ser causador de ansiedade e angústia, e ironicamente o equilíbrio é o oposto: é tudo, menos ancorar. É movimento eterno. Equilíbrio é (mu)dança.

Tem horas, mesmo que seja no meio de um dia qualquer, que é bom lembrar que, por mais que tentemos, não temos o controle sobre nada, que a vida nem sempre depende do nosso esforço, tampouco do desgaste ou sofrimento de ninguém. É bom lembrar que existem boas surpresas, reviravoltas do bem, desfechos iluminados. Nem sempre as coisas acontecem do jeito que gostaríamos. Ainda bem. Assim vamos abrindo espaços para o inesperado, para o daqui a pouco, para a esperança que chega de repente e nos renova, assim, no meio de um dia qualquer, sem que estivéssemos contando com isso, como um sopro de ar, uma dose de alívio, um esperado descanso, uma discreta, serena e presente alegria que puxa a cadeira, senta do lado e, sem dizer nada, sorri e nos lembra que o mal de hoje poderá perfeitamente ser o bem de amanhã.

Muitas vezes é essa minha busca angustiada por explicações que me desvia da rota. Não é difícil perder o prumo, mas basta, a cada dia, nada além do que sua própria porção e, para cada experiência, um significado específico. Até que num estalo de lucidez eu consigo enxergar o quadro inteiro, a pintura terminada, cada sombra, cada tinta, cada mancha, cada risco, sem lógica enquanto eram riscos isolados, mas que depois tudo vira uma coisa só, o quadro está pronto; a arte, enfim, se plenificou de sentido.

As pessoas estão esquecendo que a arte é um exacerbamento do amor. A arte é também uma forma de exuberância. Canto e toco canções, espalho músicas dos outros e minhas também, porque o meu amor é demais, porque amo mesmo muito. Demasia e exagero, como tudo na vida, têm preço que eu pago copiosamente, mas ainda é incrível viver aquilo que se ama, com ou sem equilíbrio, inteiro ou despedaçado, como sabiamente escreveu um extraordinário Guimarães Rosa: viver é mesmo um eterno rasgar-se e remendar-se.

Música sugerida para esta leitura:

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Oldemburgo Neto é jornalista, graduado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com passagens por redações de web (Portal G1), jornal impresso (Gazeta de Alagoas) e assessoria de comunicação (Companhia de Saneamento de Alagoas). Também colabora com textos nos coletivos Jornalistas Livres e Mídia Caeté. Músico nas bandas alagoanas Garden e Alma de Borracha. Progressista & alucinado pela arte de viver.

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