Colaboradores Stéfany Caldas

A adolescência, as paqueras e os cafajestes

Foto: Reprodução Instagram @humanosnaoestranhos

Por Stéfany Caldas – 01/02/2020

Quando eu estava iniciando a adolescência, lá pela primeira década de 2000, tempo em que era preciso utilizar o telefone para fazer ligações se você quisesse deixar claro que estava paquerando alguém, quem ditava as regras eram os caras que popularmente vieram a ser conhecidos como bad boys. Pode haver uma variação também de cafajeste, ou don juan, conforme você converse com outras meninas.

O que eu quero dizer é que o típico cara com beleza óbvia e padrão, que se orgulhava de pegar todo mundo e não se amarrar a ninguém, que não considerava muito quem estava a sua volta, além de seus fiéis escudeiros, era o que atraia olhares e com quem a maioria das meninas da escola sonhava em ter uma chance.

Já dizia Gessinger em “O Papa É Pop”, era uma espécie de “todo mundo está comprando os mais vendidos”. O cara se orgulhava de exalar masculinidade, vivia metido em confusão, pegava todas as meninas, não assumia nenhuma, e no final estava tranquilo conversando com os “parças”. Conhece alguém assim ou não?

O fato é que quando lembro dessa minha adolescência e do quanto amigas já sofreram por tipos como esse, e me deparo com várias meninas que estão agora na idade em que eu e minhas colegas tínhamos naquela época, refletindo sobre como o machão na verdade é um cara-problema, eu sinto um orgulho danado.

Tenho visto de forma muito positiva, que esse cara, pelo menos do lado de cá, venha sendo desconstruído do símbolo de irresistível e revisto com a lupa do bom senso, do autocuidado, da autopreservação. Precisamos falar para nós mesmas, e, depois para eles, que não dizer o que sente, praticar ghosting – o ato de sumir – colocar as emoções pra fora por meio da violência física e verbal ao invés do diálogo, considerar somente outros homens dignos de afeto e usar mulheres como brinquedos não são um estilo de vida e não são parte de personalidade máscula, são atitudes passíveis de serem trabalhadas em terapia.

Quanto antes cada uma de nós entendermos que não é privilégio ser escolhida por um cara que não escolhe ninguém, mais conseguiremos optar por relacionamentos saudáveis. Quanto mais cedo pararmos de nos cobrarmos por achar que, enquanto parceiras, cumprimos tarefas de mães e professoras na condução do homem pelo próprio autoconhecimento, na mudança de comportamento e na quebra de padrões que ele mesmo alimenta, menos nos frustraremos.

Que importante é utilizarmos as redes para dar voz a quem tem preparação profissional para falar sobre isso. Que satisfação ver mais meninas acolhendo umas as outras e compartilhando informações, afeto e cuidado.

E, principalmente, torço para que esse tipo de “caras-problema” seja cada vez mais evoluído para seres que procuram trabalhar suas feridas emocionais e se relacionar de forma equilibrada com quem se aproximar.

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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