Alpendre poesia

Dois poemas de Almir Zarfeg

À MEMÓRIA DOS PLANTADORES DE VACA

Vocês foram tudo na vida:
Capim, café e cumpadis

Vocês são nada, nadinha
Na outra vida, agora, nuvem

Vocês formavam a mais
Bela e bostal fila indiana

Agora, ficam suspensos
No boitempo, bem feito!

Pouparam e venderam
A alma ao Bezerro de Ouro

E, no fim, saíram no lucro:
A eternidade bovina

Vocês plantaram vacas e
Colheram leite e deleite

Um pedido formal meu:
Mandem notícias frescas

Uma curiosidade secreta:
Metano cheira a merda?

Uma indiscrição minha:
Vão plantar vaquinhas!

*

BATISTAS

Não perdem uma briga e
Passam fácil pelo buraco da agulha

Politicar é a especialidade
Número um dos Batistas

Conversa pra boi dormir
Definitivamente não é com eles

São gente como a gente:
Têm medinho do escuro

Os Batistas são solenes e –
Muito – desconfiadinhos

Não dão a mínima pro meu
Sentimentalismo barato

Previsíveis, nunca vão dizer
Por aí: Viva Água Preta!

Os Batistas serão pau pra
Toda obra até a 3ª geração

Depois vão virar nostalgia
Ou anedota cabisbaixa

***

.

Almir Zarfeg é poeta e jornalista baiano. Preside a Academia Teixeirense de Letras (ATL). Iniciou-se na literatura em 1991 com “Água Preta”. Os dois poemas acima vão estar na 5ª edição do livro, a sair em 2021, nos 30 anos da obra. Ele é autor também de obras em prosa como “A goleada & outras contrapartidas” (JustiFiction! Edition, 2018).

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