Alpendre Conto

[Conto] Túlio, de Érika Santos

Foto de medium photoclub no Pexels

Uma coisa engraçada (mas nem tanto) sobre os dias frios é a convenção de se sentir melancólico. O desafio em ser pensante é não ir de encontro a essas convenções, o que é muito difícil. Porém, se você consegue de alguma forma analisar esse tipo de situação, vai perceber que é só sintoma do que seu organismo não dissolve durante o sono.

Uma dessas aconteceu comigo, num dia chuvoso. – Por ironia, ou não -.

Eu, capaz de observar esses fenômenos de longe, logo me pus a refletir sobre a causa da situação. E como já era de se esperar, não obtive resposta imediata.

– Mas dizem que quando você escreve, essas coisas diminuem, diminuem e diminuem ao ponto de você conseguir sentir somente a tristeza comum – A excedente se vai -.

Sobre o dia chuvoso: Consegui pensar o que equivaleria a algumas páginas. no entanto, só pensei. Nesse momento, porém, quando finalmente tive coragem para trazê-las (as páginas) aqui, quase nada ficou como eu havia planejado.

Mas, li em algum lugar que o intuito de escrever o que se pensa é a abstração, logo não importa a forma.

Continuando: – a forma pouco importa -. A chuva tinha um barulho absurdamente forte pra mim, mas acho que nem era tudo isso.

A visão da janela, (por onde eu observava a chuva) que tinha grades, era opaca e feia. Tinha alguma coisa de beleza, mas só se você for um leitor daqueles que gosta de contos tristes.

 Era uma quinta-feira de abril qualquer. Cansado, resolvi passar o máximo de tempo na cama, a fim de descansar das tarefas que me exigem esforço físico e mental, mas parece que isso não funciona, pelo contrário, nos cansa também. É estranha a sensação. Então um café me pareceu boa ideia.

 Levantei.

Depois do café, acendo um cigarro e saio até a garagem para ler um pouco, (mas não notícias) distrair. Durante a leitura, curiosamente, me veio uma memória da infância – minha avó, às vezes me pedia que lesse pra ela (a bíblia). Ela não foi alfabetizada, uma mulher negra, mãe de catorze ou quinze filhos, criou quase todos os netos. (acendo outro cigarro) Obviamente não consegui me manter na leitura, só pensava em como me livrar do fato que me deixou melancólico.

Há algum tempo conheci um rapaz, chamava-se Túlio, estudamos juntos no ensino médio.

Durante o ensino médio, Túlio sempre sentou no “fundão”, gostava da bagunça. Ele era magro, pouco inteligente, comum. Tinha dois ou três amigos, um rosto estranho e marcas de bronzeado, como quem anda muito ao sol e acaba com algumas partes do corpo claras e outras queimadas. (Isso era latente no pé, onde o bronzeado era a marca de sua havaiana). Estudamos os três últimos anos da escola juntos, mas só começamos a nos relacionar no último. – Dizem por aí que o último ano da escola é quando os jovens chutam o pau da barraca, sabe? Se perdem! – Foi praticamente o que aconteceu comigo. – E Túlio foi o estopim. Inclusive o que me levou a provar pela primeira vez o cigarro (e não largar até hoje) foi observar Túlio fumando, parecia sensual e bonito, como nos filmes (mas só parecia).

Com tudo o que aconteceu no último ano que passei na escola, (você deve saber: as escapadas das aulas pra bater perna, as conversas dentro da sala, as expulsões e etc.) eu e Túlio ficamos cada vez mais próximos, tão próximos que dividíamos a catraca do ônibus na volta pra casa.

 Mas o ano acabou rápido e, antes que percebêssemos, estávamos na fila da esperada Universidade, eu optei por Letras e Túlio por Jornalismo (com o pouco que estudamos, as esperanças de passar eram poucas).

– Sabe aquela sensação que a gente tem quando tá na escola? Que todo aquele povo é pra sempre, inseparáveis? –

Há uma semana, soube a respeito de uma “troca de tiros” perto de onde morei, quando cursava o ensino médio. Túlio se foi ali. Mas nós tínhamos nos separado bem antes, e eu não esperava algo diferente. No entanto, ao ouvir a notícia me senti perdido e desnorteado. (acho que a gente nunca tá pronto pra uma coisa dessas).  Túlio não conseguiu cursar Jornalismo. A tristeza comum continua aqui, eu também, só que menos clandestino.

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Érika Santos (Maceió-AL) é professora, estudante de Letras pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), escritora e poeta.

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