Colaboradores Ricardo Escudeiro

Dois poemas de Marianne Boruch // Tradução de Ricardo Escudeiro

Marianne Boruch. Foto: Reprodução.

A poeta e ensaísta Marianne Boruch cresceu em Chicago. Ela é autora de diversos livros, como “Eventually One Dreams the Real Thing” (2016); “Cadaver, Speak” (2014); “The Book of Hours” (2011), que ganhou o prêmio Kingsley Tufts Poetry; “Grace, Fallen from” (2008); e “Poems: New & Selected” (2004), todos esses de poesia. Seu livro de memórias, “The Glimpse Traveller” (2011), fala de uma viagem de carona que ela fez em 1971. “The Little Death of Self” (2017), “In the Blue Pharmacy” (2005) e “Poetry’s Old Air” (1995) são seus livros de ensaio. Sua publicação mais recente foi o livro de poesia “The Anti-Grief”, de 2019.
Ganhou bolsas da Fundação Guggenheim e do National Endowment for the Arts, residências do Bellagio Center da Fundação Rockefeller, prêmios Pushcart e uma cadeira de professora visitante na Universidade de Edimburgo. Ela atuou como artista visitante na Academia Americana em Roma e no Isle Royale, o parque nacional mais isolado da América. Possui trabalhos em várias antologias, como “Best American Poetry” (2009, 1997); “American Alphabets: 25 Contemporary Poets” (2006); “Poetry 180” (2003); “Hammer and Blaze: A Gathering of Contemporary American Poets” (2002); e “Poets of the New Century” (2001).
Lecionou na Universidade de Tunghai, em Taiwan, e na Universidade do Maine, em Farmington. Em 1987 foi para a Universidade de Purdue, onde desenvolveu e dirigiu o programa de pós-graduação em escrita criativa. Tornou-se emérita em 2018. Desde 1988 ela leciona, também, no Programa de Graduação para Escritores da Warren Wilson. Ministrou workshops de poesia em locais como Bread Loaf, RopeWalk e Haystack School of the Arts. Em 2019, pelo programa Fulbright Senior Scholar, no International Poetry Studies Institute, da Universidade de Canberra, ela passou cinco meses observando a vida selvagem na Austrália para escrever um bestiário neo-medieval, a sair pela Copper Canyon.


I Saw a House, a Field

Most of the rooms muted by cold,
and the furniture there
with its human chill under vast drapes
of plastic for the season –

Because eventually we are
an austerity, walking room to room
enamored and saddened, all the crazy variations
of bed and table, clocks,
books on a shelf, foreign harbors etched
some yesterday, framed for a wall.
And the effrontery of windows assuming
how lovely out, a certainty
of lawn and woods, distance on a road, voices
that in summer drift up and move away.

Desire. That continues
and continuing is the part loved
just as there is emptiness with an occasion in it,
clothes to remove before you ease into a bath.

Branches and branches scraping is
winter. And after midnight, near morning when
I stepped out, the moon by half,
was it deer I saw? A little one and maybe
its mother. Or they were
smaller than deer. Or larger.

Oh but they were strange, stopped
across the snow like that.

Eu Vi uma Casa, um Campo

Muitos dos cômodos emudecidos pelo frio,
e a mobília ali
com seus calafrios humanos sob as largas vestes
de plástico contra o pó –

Porque eventualmente nós somos
uma austeridade, caminhando pelos cômodos
enamorados e desanimados, todas as mudanças loucas
de mesa e cama, relógios,
livros em uma prateleira, portos estrangeiros entalhados
em um ontem qualquer, emoldurados na parede.
E o desaforo das janelas presumindo
que é lindo lá fora, uma convicção
de relvas e bosques, distância na estrada, vozes
que no verão flutuam e se afastam.

Desejo. É o que continua
e continuar é a parte boa
assim como o vazio é uma oportunidade em si,
roupas que você tira antes de relaxar no banho.

Galhos e mais galhos arranhando é isso
inverno. E depois da meia noite, já quase amanhecendo
quando fui lá fora, à meia lua,
foi um cervo o que eu vi? Um filhote talvez
e a mãe dele. Ou eles eram
pequenos demais para cervos. Ou grandes demais.

Ah mas eles eram estranhos, parados
sobre a neve daquele jeito.

§

Hospital

It seems so –
I don’t know. It seems
as if the end of the world
has never happened in here.
No smoke, no
dizzy flaring except
those candles you can light
in the chapel for a quarter.
They last maybe an hour
before burning out.

And in this room

where we wait, I see
them pass, the surgical folk –
nurses, doctors, the guy who hangs up
the blood drop – ready for lunch,
their scrubs still starched into wrinkles,
a cheerful green or pale blue,
and the end of a joke, something
about a man who thought he could be –
what? I lose it
in their brief laughter.

Hospital

É o que parece –
eu não sei. Parece
que o fim do mundo
nunca aconteceu por aqui.
Sem fumaça, sem
chama trêmula exceto
essas velas que se pode acender
na capela para algum dos quartos.
Talvez elas durem uma hora
até queimarem por completo.

E nessa sala

onde esperamos, eu vejo
eles passarem, o pessoal da cirurgia
enfermeiras, médicos, o rapaz que segura
a bolsa de sangue – prontos para o almoço
seus aventais ainda engomados mas amassados,
um verde alegre ou um pálido azul,
e o final de uma piada, alguma coisa
sobre um homem que achou que poderia ser –
o quê? Me escapa
no breve riso deles.

*

* os poemas estão na “The New Yorker”, edição de fevereiro/2019, e na “poetryfoundation.org”, respectivamente.
** meu agradecimento à poeta Mariana Godoy, que me apresentou essa autora
.

***

.

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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