(Arquivo Pessoal)

Por Glória Damasceno – 18/09/2020

A tua presença
Entra pelos sete buracos da minha cabeça
A tua presença
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A tua presença
Paralisa meu momento em que tudo começa
A tua presença
Desintegra e atualiza a minha presença
(…)

Invariavelmente, quando escuto a presença de alguém pela primeira vez sempre desejo que eu pudesse ter me escutado com os ouvidos dela ou dele assim, também pela primeira vez na vida, pra ver “comé qui é” não só a minha voz desaguando neste corpo costurado de sensações, mas também a minha própria voz invadindo “eu” por outros olhos, de outro ângulo. Como seria se escutar sabendo que é sua aquela voz nunca ouvida antes na história dos seus sentidos? O que diria para si mesmo diante da sua presença?

O mesmo acontece comigo quando leio um poema ou compartilho música numa língua estrangeira a pessoa, isto é, em se tratando de mim, quando apresento clássicos de longa-data ou recém-nascidos da Música Popular Brasileira especialmente, porque imagino que cada língua soa a sua maneira, e em cada corpo com suas particulares experiências, suas memórias, suas notas, seus tons diversos, seus gostos, sua fonte de embriaguez portanto. Com o passar das horas, e desse acontecimento, tento me lembrar de como me senti ao vivê-lo, e confesso que é tão rápido e tanta coisa acaba se dando nesse instante em que “tudo” vira uma coisa só.

A tua presença
Transborda pelas portas e pelas janelas
A tua presença
Silencia os automóveis e as motocicletas
A tua presença
Se espalha no campo derrubando as cercas
(…)

O que se entende por “tanta coisa” sendo “tudo”? Quando a paixão está em jogo, estamos falando do estímulo visual seguido pelo estímulo do som da voz e os feromônios (cheiro liberado por homens e mulheres responsável pela atração física), e então o olfativo. Todos esses estímulos juntos fazem com que se ativem a feniletilamina e também a dopamina – neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer e bem-estar, e a ocitocina (famigerado hormônio do amor). Que maneira voraz de estar presente!

A tua presença
É tudo que se come, tudo que se reza
A tua presença
Coagula o jorro da noite sangrenta
A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza
(…)

Igual acontece quando somos profundamente ligados a alguém e então passamos algum tempo sem escutar essa voz que já incorporamos ao ponto de ser memória sólida — e afetiva. A exemplo: a voz do meu avô. Às vezes eu apenas o escuto ao fundo numa dessas chamadas de vídeo rotineiras que faço com minha avó pra gente se saber de nós. E embora a voz dele seja só um ruído ao fundo, é esse barulho constantemente pronto para ir à roça que enche os meus ouvidos de uma alegria que não se traduz para mais ninguém.

A tua presença
Mantém sempre teso o arco da promessa
A tua presença
(…)

Mas também há casos em que essa voz do outro se desvela devagarinho, como quando as crianças estão aprendendo a falar. Até que uma palavra inteira seja dita, do jeito que socialmente a concebemos “palavra toda”, centenas de “bês” com “as” já foram ouvidos e aí quando ela nasce, com ou sem letras trocadas, nós já nos acostumamos com aquela maneira de dizer que quer alguma coisa, que está satisfeito, que se machucou. É portanto meio segredo elucidado, embora não deixe de ser lindo e motivo de celebração, afinal de contas, quando alguém descobre que se pode conquistar muitas coisas com as palavras é realmente um dia extraordinário.

Gosto de imaginar que esse dia faz parte da trajetória de Caetano Veloso, que abre e percorre este artigo com uma de suas dezenas de canções. Caetano definitivamente sabe como é essa coisa de estar presente ao som apenas dos versos que a boca canta, e/ou diz!

***

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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