Alpendre poesia

Dois poemas de Jansen Hinkel

Imagem de Michael Gaida por Pixabay

EXTINÇÃO

a massa é específica.
um álbum de recortes de revista onde um inventário de móveis estava à venda há mais de trinta anos foi amassado inúmeras vezes ao longo dos natais.
outro trilho no trem quase ao lado do outro e a falta de trilho numa janela não deixa o quarto escuro.
o guarda-roupa revoltado com o vento atrapalha o sono.
piano macabro e uma trama.
outra coisa é um fato considerado absurdo, embora considerável, isso de dizer um nome que não é e estar em lugar nenhum onde uma câmera enquadra, ou várias, o plano, avariado e mal feito.
no dia em que se estava ali uma moeda deixou o lugar ocupado e o camelo teve sede e bebeu a extensão de um deserto, um bicho em extinção deixou de existir por fim.
o nanquim pontilhou e riscou uma fome de visão, estar na parede não é solitário?
agulha pinta na pele alguns nomes, no antebraço, de improviso, palavra e olho e nome e antinome e hipotaxe e parataxe e antissubordinação mais um porvir esquizofrênico.
a simulação de uma parede e algum ofício atravessado nela dimensionou lugares passíveis de descrição:
… a menina no celular,
… o velho a xingar jesus cristo,
a chamar deus de porco,
preocupado com os pés de alface lisa,
a espantar com os pés o gato preto e o gato pardo,
… alguém muito perfumado que passa pela sala,
… um cartaz amarelo com três pessoas a olhar pra frente,
… o esquecimento de uma senha não muito importante.
quando a simulação foi desligada e a parede holográfica deu espaço à realidade
ali mesmo nela violências desmedidas, numerosas mortes, corpos de metal, o fim da educação e uma falta de tudo foi tida como normal
um dia depois de outro dia num absurdo lugar comum.
então por esses dias
todos aqueles poemas
de 1914
seguidos de um ponto de interrogação
entre parênteses
deixaram de fazer sentido
desde que reticente
o outono assumiu suas ausências
mais a intolerância e a febre
na janela quebrada da cozinha
que deu origem a uma infinita corrente de vento.
também um chinelo verde já sem uso
com a sola quase buraco
fez com aqueles poemas
de 27, 79 e 2005
não fossem mais tão importantes.
não porque era outono ou porque se precisava de chinelos novos ou porque a janela pedia conserto para sumir com a corrente,
perderam o sentido devido a novos eventos práticos
onde no viveiro encerrado da casa
a metafísica foi expulsa
pelo vento mesmo que extinguiu possibilidades de concentração
e tornou impróprio
o poema.

*

SORTEIO

manuseado
nos tempos de escola
e esquecido
na pilha de livros
não lidos
que estão
no vão
da prateleira
abaixo
do televisor.

E assim
aqui se apresenta
o resultado:

Gato não sonha igual cachorro visto que o segundo sonha com comida e os felinos sonham a liberdade da noite.

Ofegar durante a noite por causa do calor e os animais pensam mais a respeito dos equinócios do que um homem deitado nos próprios pesadelos.

Bacanal nas madrugadas, bares já vazios e o cheiro sólido dos esgotos que expulsam a fumaça dos despojos do dia anterior.

Opereta quase muda logo antes da aurora e com certa concentração é possível ouvi-la entre orvalhos e a ranhura dos asfaltos.

Carboxílicos os pensamentos, ácidos incongruentes a invadir os tímpanos e a medula óssea, que divagam entre um futuro daqui a três horas e os dez anos precedentes de um amor mal sucedido.

Selecionado o trauma, gatos e cachorros então fogem, em grupo, pois o dia que vai aparecer não lhes dará boas vindas tampouco leite morno ou carne mal passada.

Mergulho nos miados, latidos e no bater das asas de horríveis criaturas que alienígenas atacam à espreita das florestas.

Proterozoica era de bilhões de anos talvez não tenha passado e aqui tudo é simulação de um programa de computador e na verdade ainda se está no recente magma e nada existe de fato nem mesmo o primeiro animal.

Timão prendido na dura crosta de um bicho cansado que vaga no campo de trigo sem saber o que é o trigo ou o porquê do trigo.

Tabelião, tabelião! Registre, por favor, todas essas angústias no caderno dos deuses e peça a eles que me deixem, nem que seja por um dia, sonhar como os cachorros e não como os gatos ou simplesmente não sonhar nada e dormir por fim na paz dos lençóis recém-lavados.

***

.

Jansen Hinkel nasceu em 1989, na cidade de Capinzal, interior de Santa Catarina. Formou-se em Cinema pela Faculdade de Artes do Paraná e mora em São Paulo desde 2015, onde desenvolve sua pesquisa de doutorado em Comunicação Audiovisual sobre o cinema do Oriente Médio, pela Universidade Anhembi Morumbi. Autor do livro de poesia Paragrafias (Editora Patuá, 2020).

%d blogueiros gostam disto: