Colaboradores Edmar Neves

[RESENHA] Quem matou o Caixeta? ou quadrinhos e novas mídias

Imagem: Divulgação.

Por Edmar Neves – 11/09/2020

A arte contemporânea é estranha. Os materiais usados na sua construção, sua produção, os meios onde ela circula, a forma como obra e publico se relacionam, etc., são todos estranhos. Esta obra é literária ou áudio-visual? É uma instalação artística ou uma peça teatral? Existe poema/conto/novela/romance se ele estiver circulando somente nas redes sociais e não publicado num livro? Isto é um livro ou a embalagem de um jogo de quebra-cabeças? Este relato é uma ficção ou a realidade? As publicações do (a) autor (a) no twitter podem ser consideradas parte de seu universo ficcional? Quais os limites pra classificar uma obra de arte? São estas as questões que a estranheza da arte contemporânea nos causa.

Dentro dos quadrinhos, há uma vasta produção que encontrou sua morada na internet e que explora o potencial das novas mídias para sua concepção, tanto na forma quanto no conteúdo, utilizando recursos como hiperlinks, diagramação diferenciada, animações, narrativas multilineares, grande interatividade com o leitor, entre outros elementos, gerando o que alguns chamam de HQs digitais e outros chamam de Webcomics.

Um bom exemplo de obras que usam o potencial da internet como recurso narrativo e artístico é a HQ Quem matou o Caixeta? (Webcomic, AVEC Editora, 2018), escrita por Rainer Petter, que pode ser lido em plataformas específicas para publicação de quadrinhos, nas redes sociais, em blogs, no formato de vídeo, ou ainda no formato impresso.

O enredo apresenta um casal que assiste a um documentário sobre o assassinato de Caixeta, um youtuber polêmico que morreu sob circunstâncias misteriosas.

Conceitualmente falando, os quadros na versão web e o formato do livro impresso seguem dimensões que imitam o formato de um reprodutor de vídeo utilizado em sites de streeming, ou em plataformas de compartilhamento de vídeos, o que dialoga com o tema abordado pela HQ. Também é interessante notar que na adaptação para vídeo o autor, ao invés de optar pela saída mais obvia realizando uma animação da obra, escolheu emular um jogo eletrônico, o que trouxe uma dinâmica diferente para a forma como lemos o quadrinho.

Vale comentar a existência de uma narrativa dentro da narrativa, ou seja, há um documentário dentro da HQ. Inclusive no começo do quadrinho, temos o uso de imagens com legendas, como se realmente estivéssemos vendo a reprodução de um documentário e só depois de algumas páginas são inseridos balões de fala, com comentários do casal que assiste ao documentário, criando assim, uma interação entre as duas narrativas presentes na HQ.

Imagem: Reprodução.

[PODE CONTER SPOILERS]

Já os temas abordados por Rainer no quadrinho também dialogam com o universo digital, onde há uma disputa entre os produtores de conteúdo que, por um lado, tentam trazer conhecimento e entretenimento para seu público e, por outro, difundem discursos de ódio camuflados de liberdade de expressão.

Caixeta é um desses produtores de conteúdo que disseminam o ódio. Seus alvos são as mulheres, os negros, a comunidade LGBTQ+, entre outras minorias. A masculinidade tóxica e o conservadorismo também marcam presença na obra, assim como a disputa política, fruto da tentativa de mudar essa realidade. Em resumo, seus vídeos representam todo o chorume que encontramos na nossa sociedade.

Rainer também usa ainda toda uma simbologia em sua obra, ao trazer ícones da cultura pop para caracterizar os diferentes tipos sociais que ele apresenta. O pai de Caixeta, por exemplo, tem o rosto do Ned Flanders, da série Os Simpsons, representando o conservadorismo cristão. Já sua mãe foi caracterizada com o rosto da Betty Rubble, de Os Flintstones, sendo uma personificação da frase “bela, recatada e do lar”.

Imagem: Reprodução.

O próprio Caixeta é uma personificação daqueles que vivem dentro de uma caixinha, onde certas ideias parecem naturais e não construções sociais. Assim, na visão dessas pessoas, é natural perseguirmos e oprimirmos grupos sociais apenas por serem diferentes. Por certas ideias e posturas serem vistas como naturais, a mera possibilidade de mudança gera reações extremas, desembocando, em muitos casos, em violências físicas, psicológicas e simbólicas. Mas a possibilidade de mudança também é colocada em jogo na HQ, mesmo que esta seja demorada e dolorosa.

Quem matou o Caixeta? é uma HQ contemporânea em muito níveis, onde forma e conteúdo se entrelaçam para colocar o leitor diante de um espelho social. No fim das contas, descobrir quem matou o Caixeta não é tão importante assim, pois o percurso que realizamos com a leitura da obra nos faz refletir sobre nossas posturas em relação ao mundo que vivemos. Afinal de contas, o mundo está chato, ou nós, enquanto sociedade, é que perdemos a vergonha de sermos intolerantes? Talvez seja esta a principal pergunta que Rainer Petter nos faz com sua HQ.

Para ler, ver e ouvir

Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea – Florencia Garramuño
Além do livro: literatura e novas mídias – Rejane C. Rocha
As HQtrônicas e suas características – Edgar Franco
O youtuber e o politicamente correto – Canal Meteoro Brasil

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Edmar Neves é filho de Oxossi, se formou em Letras pela UFSCar, foi diretor executivo do projeto ‘UFSCar de Muitas Línguas’ e atua como redator.

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