Alpendre poesia

Três poemas de Carla Andrade

Imagem de makunin por Pixabay

Da relevância dos ecos

Com os pés fincados na areia
Vejo o que não há sentido ou significado
ou aquela garantia de nada
A água aveludada voltando a ser muita
O pouco complicando o tudo
A maria farinha antecipando o futuro
Meu cabelo ainda molhado –
e nada importa mais que o eco da sua
gargalhada dada há mais de cinco minutos

Barricada

Do amor entulhei cada centímetro do fogo
cataloguei os arrepios bestiais
e a saliva escorre em vultos.
Mas agora as portas estão fechadas.
Com meu velotrol limpo o invisível entre os tacos
e os raios do sol asteca querem ser honrados
(esse sol também tão solitário).
Com medo, lembro do poeta:
“Da vida não se sai pela porta:
só pela janela”.
E ela está escancarada.

Comprar sapatos

o amor caído
ainda faz estragos
como o jamelão
insistente
no lençol branco
quarado
trazido
pelos meus
descalços

***

.

Carla Andrade é mineira e brasiliense, mas gostaria de ser do fundo do mar. Tem quatro livros de poesia publicados: Caligrafia da Nuvens (Patuá), Voltagem (7Letras), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Conjugação de Pingos de Chuva (LGE). Além de poeta, é jornalista e servidora pública.

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