Colaboradores Stéfany Caldas

Por que a gente não se entende?

Cena do filme Como Nossos Pais (2017), com direção de Laís Bodanzky. Imagem: Reprodução.

Por Stéfany Caldas – 01/09/2020

Tenho escutado diversos relatos das novas configurações afetivas nesta pandemia. Tem casal que passou a morar junto e está adorando, casal que chegou num consenso e resolveu separar, gente passando mais tempo em família, gente se sentindo ansiosa, frustrada, até mais agressiva do que deveria, e, por isso, achando mais difícil reencontrar a conexão com o parceiro.

O que noto, enquanto amiga-ouvinte, é que não é o convívio mais acentuado que causou tudo isso, mas, uma tendência que já havia sido construída lá atrás, quando a nossa formação emocional, que tem início na infância e é reforçada na adolescência, é quase que separada por cartilhas. Se você se identifica como uma menina, recebeu orientações diferentes dos meninos.

Eles aprendem a serem mais práticos e passam a reprimir as emoções. “Levanta pra cair de novo”, era o que os meninos da minha turma ouviam quando se machucavam, para não perder tempo choramingando. Começam a competir por conquistas na adolescência. Precisam se livrar da virgindade o quanto antes. Logo vem a pornografia e distorce tudo. Eles não aprendem a fazer carinho pela importância do afeto em si. Nem a se escutar para falar sobre seus sentimentos. A maioria começa a enxergar o toque e o contato como teor unicamente sexual.

Em contrapartida, elas estão tendo que aprender a se proteger desse cara que, ao invés de receber amparo emocional, está sendo estimulado a colecionar “contatinhos”. Elas têm amigas, choram, conversam, se acolhem, enquanto buscam meios de dialogar com esse outro mundo e entender por que que o “crush” não muda. E, possivelmente, já ouviram que precisam ser sábias para ajudá-los, para não desistir, e, que todo cara é mesmo um moleque, mas, a mulher certa o fará tornar-se um homem.

O fato é que, quando ambos estão no clima de se verem com interesse de pegação e não de envolvimento, esses mundos não terão motivos para entrar em conflito, mas, como eu estou falando de relacionamentos sólidos, de pessoas que de uma hora pra outra olharam para o parceiro e para uma ficha enorme que estava junto com eles o tempo todo, eu tento aqui refletir sobre a questão da falta de entendimento.

É triste ouvir de conhecidas, por exemplo, que ao final de um dia difícil, em que tiveram de lidar com situações impactantes, elas só queriam um abraço, um cafuné, colo e carinho, aquilo que, segundo elas “era tão legal no início de namoro”, mas, para o homem com quem elas convivem, é sexo ou não é. Dentro desse espaço, recuam, e flutua todo o nó do não dito.

A Rosa, personagem do filme Como Nossos Pais, exemplifica bem esse sentimento que escuto quando diz ao parceiro, na terapia, que ela só sentirá vontade de transar com ele à noite se ele tiver sido gentil com ela durante o dia.

E o que a infância, a adolescência e o modo como fomos criados tem a ver com a pandemia, separações e tudo isso?

Estamos experimentando um período muito intenso de vulnerabilidade. Nosso lar virou o lugar mais seguro pra se estar neste momento em que um vírus circula pelo ar. E aí, é com quem dividimos esse espaço que faz esse ambiente ser acolhedor ou hostil. Como dividir como me sinto se essa comunicação não foi sedimentada lá trás? Alguém não foi ensinado a se ouvir, a se entender, a falar, a tocar, alguém foi ensinada a deduzir, a agir, a abraçar o mundo, a se colocar em segundo plano. As expectativas e as necessidades parecem não dialogar.

A pandemia não tem estreitado ou afrouxado laços. Ela lança luz para a nossa condição, a condição de nossos relacionamentos e a forma como nos conectamos ou não com as pessoas. A boa notícia é que é sempre tempo de recomeçar, reconfigurar a rota e mudar comportamentos. A pergunta é: Você quer entender e ser entendido?

***

.

Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

%d blogueiros gostam disto: