Colaboradores Ricardo Escudeiro

Dois poemas de Jessie Redmon Fauset // Tradução de Ricardo Escudeiro

Jessie Redmon Fauset. Foto: Reprodução

Jessie Redmon Fauset (27 de abril de 1882 – 30 de abril de 1961) foi uma editora, poeta, ensaísta, romancista e educadora afro-americana. De 1919 a 1926, a posição de Fauset como editora literária da The Crisis, uma revista da NAACP – National Association for the Advancement of Colored People, permitiu que ela contribuísse para o Renascimento do Harlem, promovendo trabalhos literários relacionados aos movimentos sociais desse período. Seu primeiro livro publicado foi “There is confusion” (1924), que foi escrito após a leitura do livro de um autor branco que retratava inadequadamente os afro-americanos. Seu romance “Plum Bun: A Novel Without a Moral” (1928) foi uma das importantes contribuições para o movimento Renascimento do Harlem. Ela é conhecida, também, por descobrir e orientar Langston Hughes, Jean Toomer, Countee Cullen e Claude McKay.


ORIFLAMME

“I can remember when I was a little, young girl, how my old mammy would
sit out of doors in the evenings and look up at the stars and groan, and I
would say, ‘Mammy, what makes you groan so?’ And she would say, ‘I am
groaning to think of my poor children; they do not know where I be and I
don’t know where they be. I look up at the stars and they look up at the
stars!’” – Sojourner Truth

I think I see her sitting bowed and black,
Stricken and seared with slavery’s mortal scars,
Reft of her children, lonely, anguished, yet
Still looking at the stars.

Symbolic mother, we thy myriad sons,
Pounding our stubborn hearts on Freedom’s bars,
Clutching our birthright, fight with faces set,
Still visioning the stars!

AURIFLAMA

“Consigo me lembrar de quando eu era jovem e pequena, de como minha velha mãe preta sentava lá fora à noite e olhava pras estrelas e lamentava, e eu dizia, ‘Mamã, o que te faz lamentar tanto?’ E ela dizia, ‘Eu lamento ao pensar nos meus pobres filhos; eles não sabem onde eu estou e eu não sei onde eles estão. Eu olho pras estrelas e eles olham pras estrelas!’” – Sojourner Truth

Acho que eu a vejo se sentar negra e encurvada,
Riscada por mortais cicatrizes escravagistas,
Mas, tirada dos filhos, sozinha e angustiada,
Olha pras estrelas ainda.

Mãe simbólica, nós, tua miríade de filhos,
Nas barras da Liberdade nossos corações teimando batidas,
Agarrando nosso direito, faces em luta alinhadas,
Prevemos estrelas ainda!

§

OBLIVION

From the French of Massillon Coicou (Haiti)

I hope when I am dead that I shall lie
In some deserted grave – I cannot tell you why,
But I should like to sleep in some neglected spot
Unknown to every one, by every one forgot.

There lying I should taste with my dead breath
The utter lack of life, the fullest sense of death;
And I should never hear the note of jealousy or hate,
The tribute paid by passersby to tombs of state.

To me would never penetrate the prayers and tears
That futilely bring torture to dead and dying ears;
There I should lie annihilate and my dead heart would bless
Oblivion – the shroud and envelope of happiness.

OBLÍVIO

Do Francês de Massillon Coicou (Haiti)

Quando eu estiver morta espero que possa jazer
Em algum túmulo deserto – não posso contar por quê,
Mas gostaria de dormir em algum lugar preterido
Estranho pra todos, por todos esquecido.

Lá deitada eu poderia provar com meu hálito morto
A total falta de vida, a mais plena sensação de morte;
E eu nunca ouviria o tom do ódio ou da inveja,
Tributo aos mausoléus que cada transeunte presta.

Em mim nunca chegariam nem lágrima nem oração
Que torturam ouvidos mortos e moribundos em vão;
Lá eu ia jazer aniquilada e o meu coração morto abençoaria
Oblívio – o invólucro e a mortalha da alegria.

*

Nota do tradutor:
*os poemas estão em “The Book of American Negro Poetry”, antologia editada por James Weldon Johnson em 1922.

***

.

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

%d blogueiros gostam disto: