Alpendre

Três poesias de Paulo Leminski

Foto: Reprodução.

que tudo passe

passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz

passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se

que tudo passe
e passe muito bem

não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase. in: Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 85.

*

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

polonaises. in: Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 71.

*

profissão de febre

quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento.

la vie en close. in: Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 279.

***

Nascido em 24 de agosto de 1944 em Curitiba, Paulo Leminski é autor de uma extensa e relevante obra literária, que inclui poesias, romances, contos, biografias, traduções e letras de músicas. Foi poeta, escritor, tradutor, professor de cursinho e um “bandido que sabia latim”, como no título de sua biografia. Entre suas obras mais conhecidas estão Catatau, Agora é que São Elas, Caprichos e Relaxos e Metamorfose, uma Viagem pelo Imaginário Grego. Leminski faleceu em 1989, aos 44 anos.
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