Alpendre poesia

Dois poemas de Angelita Guesser

Imagem de Rudy and Peter Skitterians por Pixabay

TRÊS DA MANHÃ

Às três da manhã o caminhão do lixo na rua passa. Maria de Lourdes e eu estamos acordadas, contando as estrelas, como quem conta as dezenas do terço na missa de domingo. Os barulhos da noite, caem feito pedras em nossos sonhos, e as estrelas caem feito sonhos em cima do reflexo do mar, que às três da manhã, no inverno, parece glacial. Maria de Lourdes e eu ficamos paradas, deitadas, feito ilha em torno de vulcão, apenas ouvindo cada cair de pluma, cada respirar de anjo e cada sussurro que vem da sala. Esses sussurros que vêm aqui de dentro, às três da manhã, ecoam as lembranças de quando Maria de Lourdes e eu dançávamos nas calçadas contando as gotas da chuva, como quem cata nozes ao pé da Nogueira. As gotas da chuva, assim como as nozes, eram sonhos de crianças, que hoje não existem mais, assim como Maria de Lourdes e eu às três da manhã.

COR DE CARNE

Se eu pudesse ser outra e não ser eu, correr neste mundo por entre arroios quando a verdade for confessada. E esquecer que nascer, também é escolher a hora de partir. Como ser outra e não eu, nascer da minha própria costela, até o último dia e depois do depois de amanhã. Ter um novo corpo moldado por outras mãos, ser beijada por outras bocas. Ter esse corpo e outro corpo que não morra aos pedaços, que busque no teu abraço a hora certa do imprevisto. Como ser eu em outro corpo? Um, sem cor de carne, sem vida pequena, sem fins e meios.
Ser eu e não ser outra. Ser aquela que volta a nascer no descontínuo do tempo. Ser aquela que salta em movimento e não tem medo do amanhã. Ser aquela que cria suposições, que exalta o desejo sóbrio, mas dá chance para a embriaguez. Ser aquela que nasce e renasce mais uma vez, e mais uma, mais uma e outra vez, em outro corpo, em outra vida, no teu abraço mais uma vez.

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Angelita Guesser nasceu no Rio Grande do Sul em 1976. Hoje mora em Porto com seus filhos e o escritor Huggo Iora com quem divide uma vida de poesias. Estudou Psicologia e Direito, fez formação em Psicanálise, também é mestra em política social. Adquiriu o hábito da escrita através da transcrição das sessões de psicoterapia em que trabalhou por 18 anos. Desenvolve seu lado artístico através das palavras e principalmente através dos desenhos. Lançou Foda-se (Ed. Autora, 2020) seu primeiro livro de poemas totalmente independente, seu segundo livro Entre um Eco e Outro (Letramento, 2020) disponível no site da editora.

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