Colaboradores Glória Damasceno

Mal-dito: um rio vermelho, e de mil e um destinos

No livro A menstruação de Valter Hugo Mãe (Macondo, 2020), a poeta Carla Diacov faz desenhos utilizando seu sangue menstrual. Imagem: Divulgação

Por Glória Damasceno – 11/08/2020

A minha menarca se deu quando eu tinha 14 anos, e ainda me lembro da estranheza com que vivi este final de tarde, porque dali em diante eu passava a ser uma “mocinha”, isto é, uma menina que já podia ser mãe, que já podia gerar literalmente uma criança dentro de si, que já podia parir um ser humano inteirinho. Uau! Que dia para um corpo de mulher.

A princípio, não me lembro de ter encarado esse momento com constrangimento ou medo, embora ao ultrapassar as paredes da minha casa eu tenha adotado uma postura desse tipo em função da ideia do senso comum sobre menstruação, pois o tempo todo escondia a qualquer custo o absorvente higiênico dos olhares sobretudo dos meninos. Eles não podiam saber que eu estava sangrando, porque esse sangue era sujo, porque esse sangue era fétido. Infelizmente, à epoca, não questionei o porquê do meu sangue ser considerado repugnante, motivo de “vergonha” para mim. Por que haveria de ser? Esse tal “vexame” ainda é difundido e vivemos em 2020.

Vida que segue, ao longo de períodos regulares ou nem tanto, incontáveis foram os tradicionais absorventes que usei, como ainda qualquer outra mulher ao meu redor, até meados do último setembro quando li o graphic novel “Fruit of Knowledge: The Vulva vs. The Patriarchy” da cartunista e ativista sueca Liv Strömquist. Esse livro extremamente bem-humorado, astuto e questionador sobre a sexualidade feminina me fez repensar sobre minha relação com meu próprio corpo, e também a relação do meu corpo com o meio ambiente, ou seja, e neste caso, os impactos negativos do uso do absorvente descartável não só para a minha saúde corporal, mas também para o bem-estar do corpo do planeta em toda sua diversidade animal e vegetal.

A partir dessa tomada de consciência aderi enfim ao coletor menstrual — essa opção revolucionária de prós e contras inventado em 1930 (para minha completa surpresa). Jurava que isso era coisa da década de 90, contudo é uma criação tão velha quanto o “modes”, como diria minha avó — provavelmente ela e um sem-fim de mulheres contemporâneas a idade dela, assim o chama porque o nome da primeira linha de absorvente descartável produzida no Brasil era “Modess”, da multinacional Johnson & Johnson.

Assim como os adevisos, o papel higiênico e as fraldas descartáveis, os absorventes encaixam-se na categoria “rejeito”. Ou seja, é lixo que de maneira alguma não se recicla ou se transforma em adubo. De acordo com matéria da plataforma Ambientebrasil, “ao fim de sua vida fértil, uma mulher poderá ter utilizado mais de dez mil unidades de absorventes higiênicos. Eles terminam despejados em ‘lixões’ e, como não são biodegradáveis, demoram em média cem anos para se decompor na natureza”.

Assustador.

O Brasil, a propósito, contabiliza mais de 3 mil lixões, que diferente dos aterros sanitários são áreas em que os resíduos sólidos urbanos (o lixo domiciliar mais os resíduos da limpeza pública) são inadequadamente descartados no solo, sem medidas de proteção ao meio ambiente e à saúde pública.

Somado a essas e outras dezenas de realidades, o sangue menstrual em si não é mau cheiroso. O que o torna nauzeabundo é justamente o contato, e sua posterior duração, com os materiais plásticos do absorvente. Este, aliás, também foi um dia tão poderoso quanto o que fiquei na corda bamba da infância e da vida adulta: a exata hora em que ao remover o copinho do interior do meu corpo pude provar pra mim mesma, com todos os meus sentidos, pois eu via, pois eu tocava, pois sentia, que meu sangue nunca foi nada daquilo asqueroso que um dia me fizeram acreditar que ele era. Era sangue com cheiro de sangue. A vida transcorrida, morna, nas minhas mãos. Que mais havia de ser senão um rio em seu infinito fluxo vermelho serpenteando seu rumo, o fim e o início de outros mundos? Com este sangue nos olhos, estremeci, sorri chorando, entendi tanta coisa. E Elisa Lucinda também:

“Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.”

***

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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