Alpendre Crônica

Quantos Anos, de Miguel Sanches Neto

Imagem de Thorsten Frenzel por Pixabay

A relação das crianças com o tempo está mudando. Algumas delas são mais sensíveis às experiências vividas, apresentando uma capacidade de entender esse processo por meio de metáforas espontâneas.

Quando Antônio completou quatro anos, ele me disse:

– Pai, agora eu cresci, não é?

Soou estranha esta conclusão de meu filho.

Crescer para ele é ter alcançado a idade avançada de 48 meses.

Na hora, apenas rimos do raciocínio inusitado.

Esta semana, ele queria reclamar que o deixávamos meio de lado.

– Faz anos que vocês não me levam para andar de bicicleta – ele disse, soltando um suspiro.

Confesso que me diverti com esta forma de se expressar. Meu filho talvez tenha ouvido tal construção de mim ou de outro adulto. Uma criança na sua idade não pode ter uma percepção do transcurso de anos. Ele parecia um velho falando de algo que cessara em sua vida.

Ainda não levamos Antônio a um local em que possa andar de bicicleta, mas passei a refletir sobre sua maneira de perceber o tempo.

As pesquisas mostram que as pessoas estão vivendo cada vez mais. Isso vem aumentando a população idosa, o que, a médio prazo, vai comprometer todo o sistema social. Teremos mais doentes, as aposentadorias se estenderão, a produtividade cairá etc.

Esta é, no entanto, apenas uma parte do problema. Em verdade, estamos envelhecendo muito desde o nascimento. Não se trata de um envelhecimento físico, pois conseguimos prolongar bastante a juventude. As mulheres de cinquenta anos na minha infância, por exemplo, eram velhas. As mulheres de cinquenta anos hoje são verdadeiras balzaquianas, muito ativas no mercado da sedução.

A sensação de passagem de tempo é que se intensificou; e a causa talvez seja o nosso relacionamento com o mundo dos objetos.

Vejam a diferença. Ganhei uma máquina de escrever Olivetti Lettera 35 em 1979. Eu havia concluído o Curso Bandeirante de Datilografia e queria treinar para arrumar colocação em algum escritório. Nada deu certo e acabei no Colégio Agrícola, como interno, mudando-me para lá com a máquina.

Ela me acompanhou durante o ensino médio, a faculdade, os meus primeiros anos de trabalho, a minha especialização e o início de meu mestrado. Comprei o primeiro computador em 1992, e daí em diante a quinquilharia eletrônica começou a se suceder num ritmo acelerado.

Os objetos mudam com tanta frequência que nem nos lembramos mais deles. Tente listar todos os aparelhos de celular que você já teve. Esta obsolescência dos objetos funciona como um cronômetro enlouquecido. Como trocamos muito as coisas, descartando rapidamente as velhas, imaginamos ter vivido muito mais do que o que foi registrado pelos calendários.

Crianças de quatro anos já passaram por tantos brinquedos e produtos eletrônicos que sofrem uma sensação de perda e são tomadas por uma nostalgia que não condiz com a idade biológica delas.

No próximo aniversário do Antônio, não sei quantos anos ele terá.

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A crônica faz parte do livro Museu da Infância Eterna (Ateliê Editorial, 2020). O livro já está à venda pelo site da editora (www.atelie.com.br) e nas livrarias.

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Miguel Sanches Neto nasceu em 1965 em Bela Vista do Paraíso – Norte do Paraná. Em 1969, mudou-se para Peabiru, onde passou a infância. Doutor em Teoria Literária pela Unicamp e professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa, é autor de mais de 40 livros em diversos gêneros, de diários a aforismos. Publicou os romances Chove Sobre Minha Infância, Um Amor Anarquista, A Primeira Mulher, A Máquina de Madeira, A Segunda Pátria e A Bíblia do Che. Finalista do Portugal Telecom e do Prêmio São Paulo, recebeu, entre outros, o Prêmio Cruz e Sousa (2002) e o Binacional das Artes e da Cultura Brasil-Argentina (2005).

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