Colaboradores Stéfany Caldas

Da impaciência nossa de todos os dias

Imagem: Nick Lu / Reprodução.

Por Stéfany Caldas – 04/08/2020

Falar em atualidade e ansiedade é mencionar quase que uma dupla de sinônimos. Quiçá, ser redundante. Começamos este período de isolamento esperançosos de que a crise pandêmica nos levasse a refletir sobre a necessidade de mudanças principalmente coletivas. Falávamos até sobre um “novo normal”. Será mesmo?

Observo que as nossas angústias e urgências somente mudaram de endereço. Elas deixaram de ir conosco pela avenida Fernandes Lima em horário de pico e se arrastam por toda a casa conforme se concentram também do lado de dentro as nossas obrigações. O trabalho profissional, o trabalho do lar, o trabalho com as crianças, a promessa diária de comer melhor, fazer algum exercício, resgatar a leitura ou continuar aquela série.

Sem os intervalos para encontrar os amigos presencialmente, ou tomar aquele banho de mar, um chopp na sexta, um cinema sozinho no domingo, ou a ida ao estádio pra ver o nosso time – sem medo de sentar na arquibancada, gritar, torcer e abraçar, viramos pessoas ainda mais intolerantes, impacientes, irritadas e confusas.

Vez dessas numa “roda de conversa virtual”, como parece o grupo de WhatsApp quando a maioria dos amigos está on-line e a troca de mensagens ocorre em tempo real, pelo menos três pessoas falavam que haviam silenciado um conhecido em comum (o ato de continuar amigo nas redes sociais, porém fazer com que as postagens que a pessoa publique não sejam exibidas no seu feed), ao mesmo tempo em que descobri que uma moça que havia viralizado na internet anos atrás, lutava contra um câncer e havia falecido.

Fiquei me perguntando como a gente tem se limitado a observar o recorte da vida uns dos outros, que resumidamente, já é o recorte que o outro decidiu fazer e expor, ou seja, filtrado – talvez algo parecido com a cultura da internet de ler apenas as manchetes das matérias e compartilhar sem saber direito do que se trata a informação – mediada por essas telas, e, a partir de um conteúdo tão rápido, stories de 15 segundos, temos decidido “cancelar” ou “exaltar” as pessoas.

Ao passo em que algo tão efêmero e digno dos nossos tempos, que são os memes, também marquem tão fortemente a vida de alguém. A pessoa viveu uma situação específica, gravou, ou alguém filmou e divulgou, e, de repente, a situação passa a ser como as pessoas se referem a ela. Não é estranho?

Entendo que essa impaciência e essa irritabilidade levem em conta também a inédita situação que enfrentamos. Uma pandemia. Uma incerteza sobre o tempo de quarentena. A necessidade de alguns de sair de casa. A incerteza sobre a situação financeira, as oscilações de humor que dias imprevisíveis podem trazer. Ainda assim, o meu desejo é que possamos olhar para nós mesmos de forma mais humanitária, que possamos entender que é justamente o ato de errar e de acertar que nos dá a possibilidade de ocuparmos e seremos mais um integrante deste universo. E, sobretudo, que possamos entender a nossa condição social de ser: únicos, mas inseparáveis.

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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