Colaboradores Oldemburgo Neto

Se eu pudesse & meu dinheiro desse

Edifício inaugurado em 1918 no histórico bairro de Jaraguá, em Maceió, foi a primeira agência bancária de Alagoas. Foto: Cortesia do acervo de Edberto Ticianeli.

Por Oldemburgo Neto – 31/07/2020

Joia rara do patrimônio histórico e arquitetônico de Maceió no início do século 20, prédio onde funcionou o primeiro banco de Alagoas é oferecido a preço de banana. Edificação não é tombada e há décadas amarga duras marcas de abandono, degradação e total esquecimento de suas memórias.

– Alô!
– Boa tarde. Acabo de ver a placa de vendo/alugo na porta daquele edifício histórico lá em Jaraguá. É com você?
– É sim. O de esquina, de primeiro andar?
– Esse mesmo! Queria saber sobre valores…
– São 700 e poucos metros quadrados de área. Um milhão e trezentos mil para venda ou 15 mil mensais para aluguel.
– Tá joia. Qual o teu nome?
– Paulo.
– Tu és corretor?
– Sou…
– Pois qualquer coisa eu volto a entrar em contato.
– Disponha!

Encerrei a ligação meio embasbacado com aquilo. Uma verdadeira joia de nosso patrimônio histórico e arquitetônico custando tão muito & tão pouco. A bagatela de R$ 1,3 milhões tá longe de fazer jus ao real valor simbólico e artístico daquela edificação, que é parte fundamental da identidade cultural da sociedade alagoana. Trata-se do prédio onde funcionou o primeiro banco do estado de Alagoas. Um casarão fascinante. Dias depois resolvi ligar novamente na tentativa de conseguir acesso ao interior do prédio no intuito de fotografá-lo para ilustrar esse post.

– Alô, Paulo?
– Pois não!
– Falei contigo no sábado à tarde sobre valores daquele prédio histórico em Jaraguá.
– Sim, tô lembrado!
– Quero visitar o prédio. Ele deve ter muitas histórias, nem acredito que está à venda. Deveria ser tombado. Você sabe alguma história ou curiosidade sobre ele?
– Não. Sei que ele dá prejuízo ao dono e por isso ele colocou à venda. Quer se livrar porque tá tudo meio deteriorado por dentro.
– Bora agendar uma visita amanhã? Quero fotografar o interior do prédio para escrever sobre ele.
– Vou pedir autorização ao proprietário. Ele autorizando, a gente vai lá.
– Maravilha!

* Até a conclusão e publicação desse texto, após incontáveis tentativas de contato com o Paulo para agendar uma visita e fotografar o interior do prédio, não obtive retorno. Seguirei tentando contato para matar a minha e a vossa curiosidade: como estão as dependências do famoso prédio nos dias de hoje?

Jaraguá

Para muitos historiadores, o bairro de Jaraguá deu origem à cidade de Maceió, no século 17. Porém, há quem afirme que a cidade originou-se a partir de uma vila de pescadores, situada próxima ao porto, também em Jaraguá, e desenvolveu-se a partir dessas atividades. Os historiadores são unânimes, apenas, em afirmar que não há uma certeza sobre a exata origem de Maceió.

As primeiras habitações definitivas em Jaraguá pertenceram a uma família portuguesa. Com o surgimento de mais residências e casas comerciais após 1820, o bairro tornou-se um ativo centro comercial, cheio de companhias de navegação, bancos, restaurantes e, posteriormente, famigerados e decadentes cabarés. No entanto, o que mais marcou a história econômica dessa região foram os antigos armazéns, também conhecidos como trapiches.

Interior do Banco do Estado de Alagoas no início dos anos 20. Foto: Cortesia do acervo de Edberto Ticianeli.

Banco do Estado de Alagoas

A construção do que viria a ser a primeira experiência bancária da história de Alagoas teve início em meados de 1915, durante a gestão do então governador José Baptista Accioly Junior, que permaneceu no cargo até 12 de junho de 1918. Às 14h do dia 6 de outubro de 1918, com a presença de um Bispo Diocesano a fazer as bênçãos da Casa Forte (cofre) e demais dependências do edifício, inaugurou-se portanto o Banco do Estado de Alagoas, cuja direção era formada pelos acionistas Francisco de Amorim Leão, Francisco Polite, Francisco de Assis Rodrigues de Vasconcelos e Pedro Almeida.

A cerimônia de inauguração também contou com a presença do governador Fernandes Lima, sucessor do mandato de Baptista, entre outras personalidades da sociedade alagoana, que puderam degustar dos mais variados coquetéis de champanhe servidos aos presentes. O prédio era vistoso e muito elegante. Mobílias impecáveis e de vanguarda para a época davam um aspecto de muito bom gosto ao ambiente. O cofre foi totalmente construído em aço, com uma câmara de ar de 10cm, e as portas possuíam chapas com 18 polegadas de espessura. No piso superior estava o salão, uma das joias raras do prédio, considerado o maior e mais luxuoso salão nobre do estado naquele tempo, e servia de espaço para reuniões e conversas entre os que mantinham negócios ali.

Já na década de 20 o banco entrou em crise e acabou sendo negociado posteriormente com os empreendedores capitalistas da família Leão, que retiraram a alcunha estatal e o banco passou a se chamar apenas Banco de Alagoas. Há controvérsias na história dessa negociação com o setor privado. Alguns historiadores afirmam que os acionistas da família Leão deram um golpe no estado, infringindo uma cláusula no contrato celebrado anos antes, e tomando para si os rendimentos e obrigações administrativas.

Seja lá como foi, se sabe que um grande esquema, muito bem articulado, culminou na privatização do banco que encerraria suas atividades anos depois, ainda no final da década de 20, em caráter definitivo, quando da morte de seu acionista presidente, Francisco Leão, conhecido por dar nome a uma das principais avenidas de Maceió até hoje, a Avenida Comendador Leão.

Detalhes das mobílias em uma das salas do banco, que primava por elegância em todos os ambientes. Foto: Cortesia do acervo de Edberto Ticianeli.

Esta avenida, a propósito, nasceu por influência do próprio Banco de Alagoas, cujo prédio está situado exatamente onde começa o que à época se chamava “Estrada Nova”, uma rua que tinha como objetivo ligar o bairro de Jaraguá, a partir do Banco de Alagoas, até a região norte da cidade, de modo a facilitar o transporte e o acesso das mercadorias até o Porto. Em entrevista exclusiva com Edberto Ticianeli, jornalista e editor do site História de Alagoas, conversamos sobre a importância do prédio no contexto histórico e econômico daquela Maceió no início do século 20.

“O prédio onde funcionou o Banco de Alagoas tem todo um simbolismo para a nossa história porque a economia de Maceió se desenvolveu a partir dali e das atividades do Porto de Jaraguá. Logo depois veio a construção da estrada nova.
Aquela esquina era a entrada do que hoje é a Avenida Comendador Leão, um grande marco à época”, comentou Ticianeli, que compartilha de desolação parecida com a deste jornalista que vos escreve no tocante ao abandono e desvalorização de nossas memórias.

“A escolha da valorização ou não de um patrimônio, do ponto de vista arquitetônico ou de memória, diz respeito ao Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] e ao Conselho Estadual de Cultura. Acho que Jaraguá como um todo tem uma importância muito expressiva para a nossa história. Espero que o prédio seja tombado e preservado”, finaliza ao concordar que arrematar aquele edifício por pouco mais de um milhão de reais é bem dizer “de graça”.

Ponto de partida do que à época se chamava “Estrada Nova”, atual Avenida Comendador Leão, em Maceió, com o antigo Banco de Alagoas ao fundo no lado direito. Foto: Cortesia do acervo de Edberto Ticianeli.

Tombamento e Patrimônio cultural

O tombamento é o instrumento de reconhecimento e proteção do patrimônio cultural mais conhecido, e pode ser feito pela administração federal, estadual e municipal. Em âmbito federal, o tombamento foi instituído pelo Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, o primeiro instrumento legal de proteção do Patrimônio Cultural Brasileiro e o primeiro das Américas, e cujos preceitos fundamentais se mantêm atuais e em uso até os nossos dias.

De acordo com o documento, o patrimônio cultural é definido como um conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação é de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. São também sujeitos a tombamento os monumentos naturais, sítios e paisagens que inspirem conservar e proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou criados pela indústria humana.

Antigo Banco do Estado de Alagoas em registro de 2019. Prédio hoje encontra-se fechado e apresenta muitos sinais de abandono e degradação. Imóvel está à venda e disponível para aluguel. Foto: Google Street View.

Quem me dera…

Se eu pudesse e meu dinheiro desse, o abandono daria lugar ao resgate e à memória. O mundo está aí para nos mostrar, com incontáveis exemplos, os diversos caminhos para evitar a degradação e garantir a preservação de patrimônios históricos. Requalificar este e tantos outros prédios cheios de história e importância para a cidade é um desafio e tanto, porém mais vale um espaço de convivência, de cultura, de encontro e de conexão com seus frequentadores do que um prédio fantasma, que vive padecendo a sucessivos donos em busca de grana e nada mais, uma espécie de ‘não-lugar’, ou seja, aquilo que é desprovido de identidade, relações ou história. O ‘não-lugar’ é o presente sem espessura, é o espaço do vazio, é ausência, isso porque um lugar é, essencialmente, um espaço que se reproduz, se retroalimenta com as relações humanas entre espaço e sociedade, lugar é estabelecimento e comunitarismo, é presença.

Uma galeria de arte, um museu, uma escola de música ou quem sabe a reincorporação do prédio para ser utilizado como órgão da administração pública? O trabalho de revitalização e preservação pode ressignificar obras arquitetônicas históricas, atraindo novamente as pessoas a ocuparem estes espaços, dialogando e oportunizando o saber do passado, valorizando a própria história, algo tão em desuso na realidade brasileira, mas que urge por mudanças significativas no âmbito da política pública e no interesse das pessoas pelo que lhe é de direito e de pertencimento simbólico.

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Oldemburgo Neto é jornalista, graduado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com passagens por redações de web (Portal G1), jornal impresso (Gazeta de Alagoas) e assessoria de comunicação (Companhia de Saneamento de Alagoas). Também colabora com textos nos coletivos Jornalistas Livres e Mídia Caeté. Músico nas bandas alagoanas Garden e Alma de Borracha. Progressista & alucinado pela arte de viver.

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