Alpendre poesia

Um poema de Diogo Costa Leal

Imagem de StockSnap por Pixabay

O corpo em si
traz a linhagem dos oceanos
Cintila os órgãos todos
a cada respiração;
Réptil parado
no sol bem aceso
das atrações terrestres

O corpo em si
quando se despe
veste uma outra coisa oculta
uma coisa de bruços no vulnerável
gozando o seu espaço de possível

Um corpo orienta-se constelando
a morte a pulso
e adivinho no amparo

Um corpo é império ouvido no sexo
equilibrista dançarino no amor
e trincheira de azul no adeus

O corpo sim o corpo
é o primeiro quarto
a primeira sala
o primeiro sótão
a primeira urna
a última

Já viste como dança sensual
a sombra de um corpo?
Até a sombra de um corpo
é de algodão pensado

Corpo videira fértil no chão da pedra
Corpo serrano do fogo-bússola
Corpo de pés descalços
sob carruagens abertas
imbatíveis

Corpo cheio de curvas tantas
de corredores arqueados e telhados falantes

Corpo chuvas prenhas de orgasmos recém-olhados
Corpo vinho demorado na língua entre bochechas
Só pele e olimpo
Só cócoras e ninho
Só quintal de escolas podadas
Só pulmão ampliado na intimidade

Corpo ser silvestre
uma espécie mítica:
um terço árvore
outro coral
e outro pessoa

Corpo crisálido
a pernoitar em posição lateral de deus
sobre dois joelhos ternos

Corpo cheio de lábios contornados
por peixes antiquíssimos
Educado por desmargens
Partícula primordial das pérolas
Grão de luz atravessada
por barcos tremendos

Corpo corpo
vales a pena
quando te levantas
e quando te deitas
Deserto rico de pintas cósmicas nas costas
Magia espalhada no voo dos suspiros
Promessa de côr da pedra à flor

Corpo corpo sim o corpo
do lado parapeito das coisas
Sempre à espera de uma coroa nos beijos

Onde amares um corpo
terás de ter duas mãos sincrónicas
à amplitude das casas
e uma vaga de sempre
para o infinito possível
do mistério

***

.

Diogo Costa Leal nasceu no Porto (Portugal) e vive em Almada. Publicou dois livros de poesia. Alia há vários anos a escrita ao spoken word e a outras artes e parcerias artísticas. Publicou poemas em revistas portuguesas e brasileiras. Difundiu poesia na rádio durante três anos com dois programas de autor. É co-autor (desde 2012) do projeto “Poemó’Copo”, aliando spoken word com performance, música e improviso. É formado em jornalismo, tendo colaborado com alguns órgãos de comunicação social. Em 2017 foi formador de escrita criativa em França. Criou o projeto já extinto de entrevistas com poetas “Um Poeta para con-versar”: https://umpoetaparaconversar.wordpress.com/

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