Entrevista Instagram

Quadrinhos, política e desigualdade social: uma entrevista com Leandro Assis e Triscila Oliveira

Foto: Série “Confinada” – Tirinha nº 13 – “Amigas”

O ilustrador Leandro Assis e a ciberativista Triscila Oliveira assinam as séries “Os Santos” e “Confinada” que satirizam a elite brasileira com foco em desigualdades sociais e privilégios.

Sucesso no Instagram com suas tiras “Os Santos – Uma tira de ódio”, nas quais satiriza a elite brasileira com foco nas desigualdades sociais e na luta de classes, o ilustrador Leandro Assis (@leandro_assis_ilustra) começou sua carreira como roteirista de cinema e TV, embora sempre tenha curtido desenhar e tivesse vontade de publicar quadrinhos. Buscando realizar esse desejo, ele decidiu escrever roteiros mais autorais e por meio de um tablet específico para desenhos uniu as suas duas grandes vontades: criar histórias, mas em quadrinhos.

Seu primeiro trabalho como ilustrador foi no livro de contos do Molusco, amigo que tem um canal do Youtube em que conta suas aventuras canabicas da juventude. Paralelo a esse trabalho, Leandro Assis começou a fazer tiras no Instagram para externar sua insatisfação com a política brasileira, falando o que pensava em forma de humor.

Um de seus primeiros trabalhos foi a série em quadrinhos “Os Bolsominions – Uma tira de ódio” que buscava satirizar os eleitores do presidente Jair Bolsonaro, retratando situações de intolerância e falta de empatia, mas ele observou a necessidade de ir além desses eleitores e satirizar os “cidadãos de bem”, de forma mais abrangente, mudando o nome da série para “Os Santos”, na qual passou a contar com a contribuição da ciberativista Triscila Oliveira (@soulanja), que com suas vivência contribuía para a produção dos textos.

Com a temática do isolamento social por conta da covid-19 e a desigualdade social que esse período escancarou, o ilustrador também assina ao lado de Triscila Oliveira a série “Confinada”, que traz as personagens Fran Clementine (patroa) e Ju (empregada doméstica) e o abismo de privilégios entre as duas, que fica ainda mais evidente em meio à pandemia.

Tira nº 10 (Confinada) – Amor à vida

Hoje a página conta com 716 mil seguidores e teve maior projeção e alcance quando suas tiras também passaram a ser publicadas na página da Mídia Ninja.

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Confira agora a íntegra da entrevista concedida por Leandro Assis e Triscila Oliveira, em que falam da parceria e avaliam a importância de seu trabalho para esse momento que o país atravessa.

Como o mundo da política entrou na sua vida a ponto de você decidir fazer trabalhos críticos sobre isso?

Leandro – A questão da política se acentuou na época do golpe contra a Dilma e o surgimento dessa onda de direita, com esse pessoal perseguindo minorias, querendo acabar com o Ministério da Cultura e até pedindo intervenção militar. Ou seja, um retrocesso absurdo. No início, eu discutia nas redes sociais, mas sabia que aquilo não levava a nada. Só aumentava a irritação e o estresse, então decidi falar o que pensava em forma de tiras de humor. Comecei a fazer uma série de tiras chamada “Lives com o Minto Javier Boulsonarro”, em que podia desabafar e criticar tudo que me incomodava no governo. Com o tempo, senti falta também de alguns eleitores do Bolsonaro. Daí veio a tira Os Santos.

Tira nº 20 (Os Santos) – Carnaval

Acompanho a série ‘Os Santos’ há algum tempo e antes ela se chamava ‘Os Bolsominions’. Qual o motivo da mudança?

Leandro – Como a ideia da série era falar de um tipo de eleitor do Bolsonaro, o primeiro nome que me ocorreu foi Os Bolsominions, mas esse título atraía muito bolsominion inconformado para o meu perfil. Tive problemas de censura. E percebi que o título também estava desviando o foco da tira. Algumas pessoas monopolizavam os comentários na tentativa de provar que “nem todo eleitor do Bolsonaro é racista, intolerante, homofóbico, etc. ”. Por mais que isso possa ser verdade, entendo que mesmo os que não são, sabiam muito bem que o Bolsonaro é, e deram carta branca para ele ser isso tudo na presidência. Mas no final das contas decidi não deixar a discussão ir para esse lado. E mudei o título. Como os bolsominions vinham se defender dizendo que não eram intolerantes, e muitos afirmavam que nem o Bolsonaro é, mas que ele apenas gosta de falar bobagem, decidi chamar a série ‘Os Santos’, porque na visão dessa gente, é isso que eles são. Verdadeiros santos.

“Como os bolsominions vinham se defender dizendo que não eram intolerantes, e muitos afirmavam que nem o Bolsonaro é, mas que ele apenas gosta de falar bobagem, decidi chamar a série Os Santos, porque na visão dessa gente, é isso que eles são”. (Leandro Assis)

O trabalho de vocês é muito importante para trazer um olhar diferente sobre a elite brasileira. Como vocês veem isso nesse momento que o país atravessa? Conseguem medir a repercussão e a força que estão tendo?

Triscila – Impossível mensurar essa importância, ainda estamos falando de uma porcentagem muito pequena das pessoas. O Brasil sempre esteve em crise, a pandemia apenas enfatizou o quanto a nossa sociedade é doente. 

Leandro – Eu fiquei muito impressionado com o crescimento do perfil. A repercussão. Isso mostra que muita gente quer ter essa conversa, quer refletir sobre a desigualdade social, o racismo. Isso já é muito bom. Além disso, fui surpreendido com muita gente vindo me dizer que as tiras realmente as fazem refletir, rever atitudes, mudar comportamentos. E isso já é bem mais do que eu esperava.

Vejo que muitos leitores (inclusive eu), consideram o trabalho de vocês um “soco no estômago”, no sentido de ser muito real ao retratar a elite brasileira. Como vocês enxergam isso?

Triscila: Essa “potência” do nosso trabalho só veremos no futuro, quando transcendermos a bolha das redes sociais, e conseguirmos dialogar com o público que não nos acompanha, este que apesar de sentir na pele as dinâmicas sociais não têm acesso a informação para compreender.

Leandro – Acho que quando vemos situações de racismo, machismo ou de desigualdade social acontecerem diante dos nossos olhos, percebemos ainda mais o quanto isso é cruel, o quanto a nossa sociedade maltrata as pessoas. Os quadrinhos, assim como a literatura, o teatro e o cinema ajudam o espectador a se colocar no lugar do outro. A sentir um pouco do que o outro está sentindo. E quem não sente esse soco no estômago pode estar precisando exercitar mais a empatia.

“Essa ‘potência’ do nosso trabalho só veremos no futuro, quando transcendermos a bolha das redes sociais, e conseguirmos dialogar com o público que não nos acompanha” (Triscila Oliveira)

Você tem planos de reunir essas tiras em um livro? Ou mesmo criar uma história única para ser publicada?

Leandro – Sim, a ideia é publicar as tiras em livro. Ainda não temos detalhes.

Como surgiu essa parceria entre vocês?

Leandro – No começo, a série ‘Os Santos’, era centrada na família branca. A ideia era observar essa família de classe média alta do Rio. Mas já nas primeiras tiras, a dinâmica dessa família  branca com a família de mulheres negras que trabalha para eles ganhou importância. Era uma situação tipicamente brasileira e muito interessante de explorar. Então comecei a procurar alguém que pudesse me ajudar, alguém que tivesse mais propriedade para falar da realidade das empregadas domésticas. Como eu recebia muitos comentários de empregadas domésticas e ex-empregadas domésticas no meu perfil por conta das tiras, fiquei de olho. Conversei com muitas. Muitas delas me ajudaram com pesquisa. E uma delas foi a Triscila. Ela fez um comentário. Conversamos. Vi o perfil ativista dela, e achei que ela seria perfeita para o trabalho. Então a convidei para escrever comigo. Para minha felicidade, ela aceitou.

Triscila – A parceria surgiu quando deixei um relato no comentário da tirinha 6, e ele já buscava alguém com local de propriedade para estruturar as vivências das domésticas nos Os Santos. É, e sempre foi urgente a importância de vários formatos que denunciem o abismo social que só cresce no Brasil, uma maneira mais fácil de assimilação.

Como vocês lidam com as críticas que recebe?

Triscila – Críticas são bem poucas e elas vem geralmente da parcela privilegiada que integra parte do problema.

Leandro – Depende da crítica. Muitas críticas, na verdade, são de pessoas que dizem não haver racismo grave no Brasil, que minimizam o problema. São brancos que não enxergam suas próprias atitudes. Pessoas que não entendem a necessidade de uma melhor distribuição de renda. Eu até tento argumentar. Mas depois de um tempo discutindo, perco a paciência (risos). Se a pessoa começa a tumultuar ou ofender, bloqueio. Quando a crítica é construtiva, ela é bem-vinda.

O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar estórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para lidar com as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília (Maceió-AL) também é mestranda em Antropologia Social e tem interesse pelo estudo das dinâmicas urbanas e seus significados.

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