Colaboradores Edmar Neves

[RESENHA] Rompendo o pacto de silêncio em A arte de voar, de Antonio Altarriba

Imagem: A arte de voar, de Antonio Altarriba e Kim. Divulgação.

Por Edmar Neves – 16/07/2020

Viver em uma Ditadura matava Altarriba aos poucos – Jorge Edson

A sinopse é dramática: no dia 04 de maio de 2001, Antonio Altarriba Lope, de 90 anos, pula do quarto andar da casa de repouso onde ele vivia. Seu filho, o escritor e professor de literatura Antonio Altarriba, em pareceria com o quadrinista Kim, decide escrever uma biografia em quadrinhos narrando a vida do pai, A arte de voar (Editora Veneta, 2ª Ed., 2018), e com este ato, quebra o silêncio ao escancarando as feridas abertas que a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Ditadura Franquista (1939-1975) deixaram no país.

Feridas e silêncios [PODE CONTER SPOILERS]

A Guerra Civil Espanhola foi um conflito armado entre republicanos progressista, que eram leais à Segunda República Espanhola, e nacionalistas, falangistas, monarquistas e católicos liderados pelo general Franco, que durou 3 anos, causou grandes faturas sociais e implementou uma ditadura fascista que durou 36 anos.

Como saldo desse período, podemos citar as mais de 400 mil vidas perdidas durante a guerra e os milhares de refugiados que se concentraram na fronteira com a França, o que resultou em campos de concentração improvisados, aprisionamentos e trabalhos forçados, além das mais de 3 décadas de repressão e violência.

Altarriba pai participou ativamente das mobilizações anti-fascistas, lutando junto aos anarquistas pelo lado republicano. Após passar um tempo nos campos de concentração franceses, ele consegue atravessar a fronteira e se engaja na luta contra os nazistas durante a ocupação da França pela Alemanha. Retornando para a Espanha, o antigo combatente se vê forçado a se adequar ao novo regime e passa a trabalhar nos negócios do cunhado, se casando e tendo um filho.

Com o fim da ditadura de Franco, inicia-se o processo de redemocratização da Espanha, onde há uma anistia entre a elite franquista, considerada vitoriosa, e os republicanos derrotados, culminando num pacto de silêncio, numa ação de provocar uma amnésia coletiva e apagar as memórias traumáticas das testemunhas dos crimes ocorridos durante a Guerra Civil e a ditadura.

Capa de ‘A arte de voar’. Divulgação.

Rompendo com o pacto de silêncio

Até existiam obras de arte que retratavam e discutiam os traumas deixados pela guerra sendo publicadas na época em que os fatos ocorriam, mas é com a chegada do séc. XXI – e mais especificamente com a aprovação da lei de Memória Histórica 52/2007 – que essas obras começam a ganhar destaque no debate público. Foi nesse contexto que Altarriba filho começa a empreitada de contar a história de seu pai.

O ato de transformar a memória dos que passaram pelos terrores da guerra em uma mensagem política contra o autoritarismo não só do franquismo, mas da democracia vigente no país, foi uma postura da chamada “segunda geração” de quebrar com o pacto de silêncio firmado décadas antes. Geração esta que é composta pelos filhos e filhas dos sobreviventes da guerra e que conviveram com os traumas de seus pais e entes queridos.

Para exemplificar as aberrações que essas pessoas passaram já no período democrático da Espanha, Altarriba filho revela no pósfácio da HQ que poucos dias após o suicídio de seu pai, a direção da casa de repouso enviou a cobrança de 34 euros que Altarriba pai devia a instituição, iniciando uma disputa judicial kafkiana.

A arte de voar, de Antonio Altarriba e Kim. Imagem: Divulgação..

Pode-se dizer que o suicídio de Antonio Altarriba Lope serve como uma metáfora para o fardo traumático do povo espanhol. Também é uma metáfora bastante simbólica que seu filho rompa com o silêncio imposto pela sociedade que optou por anistiar os crimes cometidos pelo Estado.

Gritante mesmo é a atualidade dessa HQ que, ao denunciar a violência e os abusos cometidos por governos autoritários, nos deixa um gosto amargo na boca por evidenciar o tamanho do erro de nossas escolhas. O passado está ai para nos alertar, mas infelizmente nós, enquanto sociedade, decidimos ignorá-lo.

Para ler, ver e ouvir

Um vôo para a liberdade: a representação do século XX espanhol na graphic novel “A arte de voar” – Jorge Edson
Censura, memória e resistência: o rompimento do “pacto de silêncio” nas histórias em quadrinhos espanholas – Jorge Edson
Aprendendo a voar: o primeiro vôo – Rogério de Campos

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Edmar Neves é filho de Oxossi, se formou em Letras pela UFSCar, foi diretor executivo do projeto ‘UFSCar de Muitas Línguas’ e atua como redator

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