Colaboradores Glória Damasceno

Do contexto às entrelinhas da herança: uma reflexão sobre leituras de mundo

(Arquivo Pessoal)

Por Glória Damasceno – 14/07/2020

Em meados de maio, um episódio mexeu muito com uma dessas certezas que só precisam de tempo para se espatifarem no chão. Era final de tarde, eu estava voltando do supermercado aliviada porque tinha garantido meu estoque de chocolate da semana, mas também paranóica, me perguntando o tempo todo se não tinha pego COVID-19 daquela vez, ainda que estivesse usando máscara, ainda que tivesse mantido distância das pessoas, e tampouco tocado parte alguma do meu rosto antes de lavar as mãos e assim por diante.

Distraída, não notei quem vinha na minha direção até uma menina aproximadamente de oito anos de idade cair do patinete. Uma senhora tentava ajudá-la, que se lamentava de dor, mas o cachorro super agitado e atado a uma das mãos dessa mulher não cooperava. Fiquei no impasse: ajudo ou não ajudo? Ambas estavam sem máscara, mas decidi dar meia volta e me dirigi à menina com a mão estendida: “posso te ajudar?”. A senhora me disse que elas estavam juntas, no que eu retruquei: “ah, pensei que ela estivesse sozinha!”, a tréplica veio a reboque: “você está vendo mais alguém aqui?”.

Não adiantou explicar que eu pensei ser essa mulher tão transeunte quanto eu!

A partir dessa pergunta, eu entendi o que talvez estava posto na mesa, porque infelizmente ainda não tive e talvez nunca terei a oportunidade de saber exatamente qual foi a leitura dela. Já a minha, aquela interpretação instantânea e que em geral leva menos de segundos para desenvolver um pensamento e por conseguinte uma ação ou inação, tocou numa ferida profunda, e exposta há muito tempo. Acontece que elas e eu estamos nos EUA, acontece que a menina era preta, e acontece que a mulher era branca, e acontece que eu, que não sou branca mas tenho a pele clara, julguei a priori que a criança preta poderia estar sozinha, contudo, não acompanhada (por uma pessoa branca — como eu senti que foi a mensagem que a mulher recebeu quando eu automaticamente supus que a criança estava sem nenhum adulto por perto).

A rispidez da resposta dela no meu entendimento se deu porque a palavra “racismo” se tornou imperativa nesse momento. Com os olhos incrédulos e amedrontados, neguei pra mim mesma essa possibilidade nefasta. “Não, eu não sou racista! Eu só quis ajudar!”, e então neguei para um amigo a quem recorri em seguida e quem confrontou com algumas obviedades históricas e também do campo das suposições. (Obrigada por mais essa conversa difícil, Max Farias!)

A escritora Conceição Evaristo, em entrevista concedida à filósofa Djamila Ribeiro em 2017, disse: “Nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”, no que se referia especificamente ao feminismo negro, mas penso que se aplica aqui também, a esse contexto em que me deparei. “Máscara do silêncio” também é o nome da introdução do livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, de Djamila, cuja leitura me chacoalhou inúmeras vezes, e continua pois volta-e-meia retorno a ele.

De novo: acontece que eu venho de um país que tem quase quatro SÉCULOS de escravidão, ou seja, um projeto de nação que tem mais tempo de escravismo de pessoas pretas e indígenas que de abolição (oficial) da escravatura, e vivo em outro país também formatado às custas da escravidão dessas pessoas. Como eu, que nasci, cresci e vivo numa sociedade herdeira do racismo, não poderia ser de algum modo racista? Racismo não é sobre intencionalidade, se eu/você quis ou não ser. É sobre poder, estrutura, cultura, ideia, exclusão, privilégio, negação de direitos, violências. O racismo não está só no xingamento escroto e “audível” a orelhas nuas. Está nas entrelinhas, na sofisticação de um “argumento” de aparência parcimoniosa. Como eu, que cresci ouvindo que poderia namorar “qualquer um, menos um nêgo”, de alguma forma, inconscientemente, não absorvi isso, se todos nós mais ou menos somos sobretudo o resultado de nosso tempo? Como eu-criança presenciei alguém próxima a mim não poder namorar em paz quem ela queria namorar na ocasião, porque ele era “nêgo e nêgo não vale merda”? Como me pensar -e pensar o outro sem lançar um olhar sobre os referencias socio-sistêmicos, por exemplo? Será que eu nunca tive um paquera preto, na adolescência em especial, por uma questão mera e exclusiva de “taste”, me pergunto.

Da conversa, parafraseando o cineasta Jean-Cocteau, para o silêncio das negações que poderiam desembaraçar nossos novelos sempre encontraremos desculpas, toda sorte de conjunções adversativas — e cabe a nós questiona-las, porque a “paz” do lugar de onde viemos não nos anula as responsabilidades, nem quita o preço da dívida que temos enquanto mulheres e homens herdeiros do inaceitável.

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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