Colaboradores Oldemburgo Neto

[Especial Mês do Rock] Memórias rockísticas

Show da banda Alma de Borracha (AL) no Festival do Rock. Posto 7. Praia de Jatiúca. Maceió, AL. 13 de julho de 2019. Foto: Divulgação

Por Oldemburgo Neto – 13/07/2020

Eu não queria deixar passar julho, mês em que se comemora o Dia Mundial do Rock (13), sem escrever sobre algumas histórias que guardo na lembrança ao longo de bons anos dedicados ao rock and roll. Como num piscar de olhos, mais de uma década já se passou desde que empunhei minha primeira guitarra elétrica, uma Dolphin modelo Stratocaster, presente que recebi de minha mãe ainda na adolescência e que mudaria para sempre os rumos deste jornalista que vos escreve.

O barulho ou ‘a zoada’ rolava literalmente nas alturas, meu quarto no oitavo andar do saudoso edifício Santa Sofia, minha morada á época, com uma pequena caixa amplificada, um cabo apenas para plugar a guitarra e muita energia pra descarregar depois das tediosas manhãs colegiais. A magia mesmo acontecia quando surgia alguma oportunidade de passar algumas horas num estúdio, porque só assim era possível aumentar o volume e vislumbrar o que seria tocar com uma banda.

Com os devidos contatos prévios feitos via orkut, me reunia pra tocar Nirvana com uma banda chamada Teen Spirit, ainda que nunca tenha sido membro de fato. Lembro que foi a primeira vez que toquei guitarra com outros músicos. Guardo comigo até hoje alguns CDs regraváveis com vários bootlegs de shows do Nirvana que essa galera da Teen Spirit distribuia nos shows. Recebi do vocalista, um cara conhecido como Vaca, uma dessas cópias com o encarte todo escrito à mão. Verdadeiras relíquias a exemplo do show de Munique, de 1994, última apresentação ao vivo do Nirvana antes da morte do Kurt.

Capa de “Bleach”, primeiro álbum do Nirvana, de 1989, lançado pela gravadora Sub Pop. Reprodução.

Nesse período eu estava vivendo uma imersão total no som das bandas de Seattle. Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden, essa espécie de big four do grunge, eram responsáveis por horas e horas de música no último volume das caixas de som ou dos fones de ouvido. E como o fruto não cai longe do pé, foi por esse caminho que comecei minha carreira como músico profissional tocando guitarra, com um repertório essencialmente voltado ao rock dos anos 90 numa banda chamada Bleach, homônima ao primeiro disco do Nirvana, de 1989.

Posteriormente nós também tocamos algumas músicas autorais e chegamos a gravar algumas delas, inclusive um videoclipe. Fizemos alguns shows legais em Maceió. Eu só tocava guitarra, mas eventualmente a galera pedia Pearl Jam nos shows e eu me arriscava cantando duas ou três canções, uma participação breve nos vocais, mas que costumava funcionar. A partir daí eu comecei a pensar que poderia aumentar meu repertório vocal, o que só ocorreu de fato quando me desliguei da banda e logo em seguida fundei a Garden. De lá pra cá são 9 anos, entre tantos outros projetos musicais que participei e ainda participo atualmente, sobre os quais ainda pretendo escrever muitas histórias para vocês.

Eu com o inseparável violão no Posto 7. Praia de Jatiúca. Maceió, AL. 2008. Foto: Acervo Pessoal.

Tem uma lembrança em particular que eu gostaria de registrar aqui por estar diretamente relacionada ao Dia Mundial do Rock e por mexer com uma memória afetiva comum a muitos rockeiros maceioenses: ir tomar umas e outras no Posto 7 ao som de qualquer violão surrado tocando rock and roll. Aos leitores que não são daqui ou que nunca ouviram falar a respeito, trata-se de um famoso local na orla da praia de Jatiúca, em Maceió, que nos anos 90 se consolidou como ponto de encontro dos roqueiros e simpatizantes do que se entendia por cultura alternativa na Maceió pré-anos 2000, quando o mIRC ainda era o nosso WhatsApp.

Era uma sexta-feira 13 do mês de julho do ano passado. A Secretaria de Cultura de Alagoas promoveu um festival dedicado ao rock com várias bandas no Posto 7, entre elas o Alma de Borracha, lendária banda de rock alagoana da qual honrosamente faço parte desde o primeiro dia de 2017. Puxando na memória eu lembro que estava muito na pilha de fazer esse show porque há tempos não ia ao Posto 7 e naquela ocasião eu estaria duplamente feliz: celebrar o bom e velho rock and roll em cima do palco ao lado de ídolos locais que faziam a minha cabeça em anos anteriores, tocando diante de uma multidão que compareceu em peso e viajando no lance de que tantas e tantas vezes em anos anteriores eu estava ali, no mesmo lugar, com o violão em uma mão e um vinho barato na outra.

Repeti a dose nesse dia. Atravessei toda a praça do Posto 7 carregando duas garrafas de Quinta do Morgado suave, rememorando as noites do que já começo a chamar de mocidade, entornando bons goles no gargalo e com a cabeça feita desde mais cedo, levava meu violão Cort na outra mão até o camarim. João Paulo, Bráulio, Dinho, Jeff e eu. Subimos ao palco por volta das 18h. Tiro curto: aproximadamente 1h de show, como quase tudo que é bom na vida, durou pouco, mas parecia um filme. No palco, quando fechava o olho, me transportava direto para as noites andarilhas por ali. Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin. Frenesi & Rebeldia. “Cabeludo doido da porra!”, “Toca Raul!”, “Bota um pouquinho de vinho aqui? (alguém estendendo um copo)”.

No palco durante show com a banda Alma de Borracha no Festival do Rock. Posto 7. Praia de Jatiúca. Maceió, AL. 13 de julho de 2019. Foto: Divulgação.

Que eu me lembre, esse festival foi o último suspiro rockístico do Posto 7 desde então. Por algumas razões, que ainda não são muito claras para mim, o local já não tem o mesmo apelo de outrora, a galera parou de frequentar e o poder público pouco faz para preservar não só a estrutura física mas sobretudo a memória e o valor simbólico que existe ali. Minha nostalgia me obriga a vislumbrar mais e mais festivais de rock no Posto 7, e caso isso não ocorra, que sejamos nós, nossos violões surrados e os vinhos baratos os responsáveis pela insurgência de um templo sagrado de um tempo não tão distante assim, afinal foi assim que tudo começou e pode recomeçar.

Para quem, assim como eu, tem o rock and roll como alimento para a alma, é sempre tempo de celebrar a verve libertária e ilimitada desta fascinante expressão artística e, sine qua non, filosófica. Não só é sempre tempo de celebrar tais ideais mas também de reafirmá-los ante a essa escalada dos paladinos da moral e dos bons costumes, que destilam seus julgamentos e preconceitos com o endosso do famigerado sistema, ou ‘Monstro Sist’, como carinhosamente se referia ao sistema o anarquista e pai do rock brasileiro, Raul Seixas.

O rock é bastante significativo pra mim sobretudo porque me mostrou, no instante de meu primeiro e autêntico contato com ele, que a gente pode ser o que quiser. É uma espécie de força motriz que nos encoraja, inicialmente, a uma rebeldia necessária anti-cafonice, que curiosamente pode ser perdida ou esquecida por muitos com o tempo – prova disso são certos tipos rockeiros alinhados a governos neofascistas, só pra ficar no caso brasileiro – mas que nos provoca o tempo todo sugerindo que podemos sim transcender como seres humanos e como sociedade pela transgressão de ideias, costumes e principalmente atitudes.

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Oldemburgo Neto é jornalista, graduado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com passagens por redações de web (Portal G1), jornal impresso (Gazeta de Alagoas) e assessoria de comunicação (Companhia de Saneamento de Alagoas). Também colabora com textos nos coletivos Jornalistas Livres e Mídia Caeté. Músico nas bandas alagoanas Garden e Alma de Borracha. Progressista & alucinado pela arte de viver.

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