Alpendre poesia

Dois poemas de Rafael Fernandes

Foto: Andre Kertesz

Cena

para Maria

Enxergar sua cidade como uma pintura.
E você através da janela
como se os limpadores de para-brisa
fossem os pincéis numa cena
que vai virando passado
à medida em que o ônibus
se aproxima.
Como se tudo que está para acontecer
fosse já uma lembrança.
Uma pintura que vemos na sala
mas em que imaginamos apenas
os movimentos do pincel
atrás das cores.
Ou uma música que ouvimos
e apenas imaginamos o que fazíamos e onde estávamos
ao ouvi-la da primeira vez.
Como se eu estivesse com fones de ouvido nesse ônibus
viajando pra te encontrar
e assim que eu chegasse,
a cena do encontro já estivesse em um dos seus desenhos.
E tudo aquilo
que parecia estar acontecendo
pela primeira vez
os sons, as cores, as lembranças que eu teria
quando chegasse
fosse algo que eu apenas recordasse no ônibus
pois você já teria me mostrado
há muito tempo
no caminho

*

O meu retrato

para Maria

Os traços do lápis
percorrem caminhos no meu rosto
e as curvas
parecem as ruas de uma cidade.
Primeiro da minha cidade
as avenidas pelas quais
passei tantas vezes,
que percorri como se me olhasse no espelho.
Então percebo que você está ao meu lado,
e assim que memoriza essas ruas e esquinas
sou eu que te sigo.
Você me mostra algo novo,
essa cidade
como se eu fosse um estrangeiro.
Basta um detalhe para que todos os traços
e caminhos
estejam reordenados.
Como olhar para alguém que passa a usar óculos
e tem o rosto todo mudado.
Ou ser alguém que deixa de usá-los
e entra à direita ao invés de à esquerda,
de repente está em ruas desconhecidas,
vai parar em outra cidade,
a sua cidade.
De repente só você conhece as avenidas.
Pode percorrê-las sozinha.
Como se desde sempre essas ruas
fossem os seus traços.
Como se fosse sempre você e não eu no meu retrato.

***

.

Rafael de Oliveira Fernandes nasceu em São Paulo em 1981, é formado em Direito pela USP, escritor, autor dos livros de poesia Menino no telhado e Cadernos de espiral (ed. 7letras) e dos romances Vista parcial do Tejo e Baseado em fantasmas reais (ed. Patuá).

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