Colaboradores Cosme Rogério Ferreira

[Corônica] Diário intervalado de um confinado na última quinzena

Foto: Pixabay

Por Cosme Rogério Ferreira – 07/07/2020

Isolamento social, dia 90. Fui obrigado a ir ao médico. Cinco dias com o ouvido esquerdo inflamado, latejando dolorosamente. Uma íngua cresceu-me no sopé da orelha, o maxilar está travado. Sabe o que é dor? Imagine aí um caco de vidro rasgando-lhe o tímpano, você pagando os pecados com o cão-miúdo lhe passando o cotonete. Só tinha vaga na segunda. Era o dia. Muita chuva! Chamei o uber. Difícil para o motorista encontrar o endereço, mesmo com GPS. Missão impossível para o Correio e para qualquer outra empresa de entrega. As únicas que acertam fielmente são a Equatorial e a Casal. Falham nunca! Para a prefeitura, aqui não existe no mapa. O carro passou direto pela transversal. O motorista ligou. Informei-lhe exatamente onde era e ele chegou, após acenos distantes. Protocolos de segurança e higiene cumpridos, partimos. A conversa é invariavelmente em torno da pandemia, das pessoas nas ruas, dos mortos conhecidos em comum, do medo, de quando…? Desci no meu ponto: o consultório, no centro da cidade. Fazia tempo que eu não ficava num ambiente com mais de cinco pessoas, embora elas estivessem devidamente distantes umas das outras e mascaradas. Exceto o bebezinho novinho que dormia tranquilo, sossegado e bochechudo nos braços da jovem mãe, que o embalava, em pé, olhando para ele como um bem precioso. Chorei aquela lagriminha chata, que primeiro nos arde as narinas, depois enche um dos olhos e fica naquele vem-não-vem, resultado da luta entre se querer que ela escapula e se querer mantê-la presa e que volte para as entranhas do olho. O olho! Os olhos… Aquilo que mais se destaca agora nos rostos cobertos pelas máscaras. Uma senhora idosa, olhar cansado e paciente, segurando resignada a bolsa, a sombrinha e a requisição de sua consulta. Imagino o quanto ela não andou para conseguir aquele papel e tratar o seu problema de saúde. Chegou a minha vez. “Otite média”, disse o otorrinolaringologista, todo paramentado, inclusive com escudo facial, manuseando o otoscópio em meu pavilhão auricular. O meu tímpano está bem vermelho. Possível infecção por bactérias ou vírus no chamado ouvido médio, o espaço cheio de ar atrás do tímpano. Ele anotou a medicação na receita enquanto comentava da pandemia. “Que coisa, né, rapaz? Eu mesmo só estou aqui atendendo ouvido. Estou dispensando nariz e garganta. Eu não sou louco! E esse povo parece que não entendeu…”. Eu: “Pois é. Isso me assusta! O comércio tá cheio de gente circulando, como se nada estivesse acontecendo…”. Ele: “O pior é esse governo, sei não… Esse governador não deveria ter decretado o fechamento do comércio quando a doença estava só começando. Se afobou, o comércio não aguentou. Agora, que a doença espalhou mais, é que seria a hora de fechar. E não tem mais controle. Olhe, sei não, viu?”. Eu fiquei besta como um médico tinha um entendimento daquele acerca de ações políticas para se combater uma pandemia. Depois percebi o que deveria pesar mais naquele homenzarrão branco e proprietário, quando lembrei que foi gente daquela categoria corporativista e ainda tratada como “classe sacerdotal” que apoiou abertamente o golpe de quatro anos atrás e conduziu o Brasil a esta desgraça sustentada em falsas notícias. Olhei, olhei e não enxerguei. Fiquei cego com a cena. E como o inchaço me impedia de mexer muito a boca, murmurei um “Pois é…”, e encerrei por ali. Peguei a receita e vim embora. Segui aterrorizado, desviando do baile de máscaras – cobrindo bocas ou cobrindo queixos – que inunda as calçadas. Vai ser muito difícil voltar para o mundo lá fora.

Isolamento social, dia 95. Ela começou a trabalhar no Hospital de Campanha. Desde que tudo isso começou, ela não pôde parar. É claro que sinto medo. Difícil saber que alguém que você ama está no front de batalha. Me conforta saber que ela está fazendo o que se dignou e dispôs a fazer: cuidar das pessoas, com afeto e com coragem. Estou aqui para cuidar dela, com a mesma disposição.

Isolamento social, dia 100. Tive seis reuniões virtuais hoje. Estou que não aguento mais isso. Porque se fosse só isso, era bom demais. O esgotamento é mental e físico. Cuidar de uma casa é um trabalho de Sísifo!

Isolamento social, dia 105. Está chovendo forte nesta manhã. Faz frio. As plantinhas, lá fora, estão verdinhas, viçosas. Como será que estão as serras de Palmeira dos Índios? Elas são tão verdejantes e úmidas nesse período do ano… As suas curvas, tão sensuais, cobertas por nuvens, convidando às suas águas gélidas ancestrais… Me ocorreu um pensamento, uma certeza matemática, seguida de uma dúvida: em que momento será que o número de perfis de pessoas mortas nas mídias sociais será maior que o de pessoas vivas?

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Cosme Rogério Ferreira é ator, poeta, professor e produtor cultural.

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