Coluna Fiquei pensando Lorena Portela

‘Better Things’ me salvou de um lamaçal de ódio

Foto: Divulgação.

Por Lorena Portela – 03/07/2020

Há pouco mais de uma semana, meu intuito era escrever esta coluna sobre o filme polonês ‘365 Days’, disponível na Netflix. Uma produção que gerou comoção e protestos ao redor do mundo e cujo efeito sobre mim foi esse lamaçal de ódio a que me refiro no título. Como se tudo que me revoltasse diariamente não fosse suficiente: o presidente do Brasil e seus filhos, seus motoristas, seus advogados, coronavírus e afins. Desde já, assumo minha culpa: vi o filme sabendo do que se tratava, para sentir angústia e escrever sobre. Uma revolta legítima e solidamente fundamentada, devo salientar. Encorajada pela frase da poeta Lâmia Brito, que diz que “todo poeta é um estelionatário, os únicos que realmente dizem o que pensam são os rancorosos”, eu me submeti a uma dose extra de agonia confiando no meu propósito.

Eu queria mesmo entender por que um dos mais populares serviços de streaming do mundo resolveu dar cartaz para uma história (péssima!) sobre um mafioso italiano podre de rico, que sequestra uma mulher que viu (de longe!) uma vez na vida, para fazer com que ela se apaixone por ele no período de um ano. Mas a resposta é clara demais, vide a posição do filme no ranking dos mais vistos. Vide o sucesso estrondoso nas redes sociais. Vide meninas ao redor do mundo comentando sobre o longa, sonhando em serem as próximas vítimas (eu disse que meu desgosto era fundamentado).

É desnecessário comentar aqui o roteiro previsivelmente fraco, os diálogos sofríveis e a agonia constante do pensamento “por que eu estou vendo isso, ó, Pai?”. Meu intuito era pôr minha revolta em cima da mesa e falar sobre a irresponsabilidade de colocar em um rol de opções um produto que romantiza o abuso físico, o crime, o sequestro, o cativeiro, num país em que – estamos cansadas de saber – homens tratam mulheres como propriedade. Não, pior: como uma propriedade que querem destruir. Eu tinha decidido escrever sobre isso.

Acontece que eu estava exausta. Sentir raiva cansa. Desilusão também.

Passar uma hora e meia em frente à TV vendo um filme ruim (estou economizando adjetivos aqui), depois confirmar os números de violência contra mulheres no mundo, em seguida ler os horrores sobre sequestro e cárcere privado e chegar aos casos em que mulheres são mantidas presas em buracos, sendo estupradas constantemente, tendo filhos dos seus algozes, criando esses filhos em buracos, comendo mal, sem vitaminas, etc., etc. Depois escrever um texto indignado contra uma gigante do entretenimento que sabe e-xa-ta-men-te o que está fazendo. O nome disso é autoflagelo. Todo o meu respeito a quem fez isto antes de mim e não foi pouca gente.

Mas não foi só isso. Teve outra coisa que me fez repensar em como usaria meu tempo e este espaço, bem no meio da minha descrença em um mundo melhor e na decência da indústria do entretenimento. Havia uma ‘Better Things’ no meio do caminho dizendo: ‘vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei’. Amém, irmãos. Essa série, sozinha, me salvou do ódio dos últimos dias. Segurou minha mão e me guiou por um caminho de luz. Foi a história daquela mãe que vive em Los Angeles e cria sozinha três filhas que me tirou da minha cápsula de cinismo. E agora eu não consigo fazer nenhuma outra coisa a não ser ter amor no coração.

Vou contextualizar o milagre: ‘Better Things’ é uma comédia-dramática da FX que estreou em 2016 e está na sua quarta temporada. É escrita, dirigida e protagonizada pela americana Pamela Adlon e seu talento colossal para fazer aquilo ali. É uma série feminista, também, que aborda o caos da maternidade, faz críticas ao abandono paterno e está atenta às questões de gênero. Uma das filhas da protagonista Sam, por exemplo, é uma menina andrógina, que se veste com roupas mais comumente vistas em meninos. Está tudo lá, várias bandeiras. E antes que perguntem, eu digo: sim, é mais uma série sobre uma família branca e rica, com seus White People Problems. Mas tem um detalhe: Sam é uma mãe controversa, com práticas questionáveis, um humor de gosto duvidoso. É uma mulher perdida em seus próprios traumas, com uma mãe estranha, com amigos que ajudam muito e atrapalham às vezes. E que ri disso tudo. Quem tiver alguma pedra em mãos, não atire.

BETTER THINGS “Sam/Pilot” Episódio 1. Foto: Colleen Hayes/FX

‘Better Things’ é, também, uma série sobre o nada. E isso é a minha coisa preferida. Muitos episódios – de 25 minutos em média, cada -, não trazem um tema claro, uma discussão profunda, uma problematização, um estopim. Mas te emocionam porque é “apenas” a vida acontecendo. A vida, assim, meio besta e sem brilho, como a minha e a sua. Sem grandes reviravoltas, sem grandes surpresas. Sam é uma atriz bem-sucedida em Hollywood, mas nem seu emprego é digno de inveja.

A graça de “Better Things” está nas frases que, de fato, dizemos, sem qualquer traço de poesia. Nas ações que são como as nossas. No amor que demonstramos ou deixamos de demonstrar. Nas relações difíceis e cheias de afeto que temos com quem nos rodeia. Nos mil detalhes que não atentamos e precisamos do talento dessa gente para nos mostrar.

Há tempos essas produções sem grandes artíficios, mas construídas com inteligência e elegância têm conquistado meu coraçãozinho cheio de fúria com o mundo. Foi assim com ‘Boyhood’, aquela belíssima ode à banalidade que é simplesmente crescer, passar de fase em fase. Aconteceu o mesmo com ‘The Florida Project’, meu filme preferido de 2017. E também com ‘Normal People’ (Hulu), baseada no livro de Sally Rooney, sobre um casal de adolescentes que amadurece junto, de um jeito bobo e profundo, igualzinho a gente.

Ainda tenho que citar a trilogia ‘Antes do Amanhecer’, ‘Antes do Por do Sol’ e ‘Antes da Meia-Noite’, do diretor Richard Linklater (o mesmo de ‘Boyhood’). O preciosismo em colocar o invisível na tela. A sutileza do amor dando liga. E sendo responsável pelo nosso eterno fetiche de imaginar que nossos diálogos, uma caminhada por uma rua e uma parada para um café, tão triviais quanto aqueles, poderiam render um filme bonito também.

Somos todos um poema mesmo, basta contar a história direito. Menos 365 Days , mais Better Things. #AjudaNetflix

Pode ser que mês que vem eu esteja aqui de volta com minha habitual indignação – até porque o terreno está fértil para isso e quem não está com raiva está desatento. But not today, Satan. Hoje eu seguro nas mãos de Sam, Max, Frankie, Duke e Phil e sigo em paz. Vejo muita graça no ordinário. Abraço a monotonia, a banalidade, a aparente insignificância e me emociono, choro até. Sou salva por perceber nossas miudezas e gostar delas. Rio com a história nada fantástica e cheia de amor. Quase me converto ao ‘deixai vir a mim as criancinhas’. Mas tudo isso colocando ‘Mother’, do John Lennon, no repeat – a música de abertura da série. Porque eu estou mole, sim, mas nem tanto.

P.S.: ‘Better Things’ passou por uma crise no final da segunda temporada quando Louis C. K., co-autor, foi acusado de “má conduta sexual” – o termo usado foi esse. Mas a série voltou melhor na terceira, com Pamela Adlon comandando geral, dirigindo, escrevendo, atuando e fazendo chover.

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Lorena Portela é jornalista e redatora. É cearense, como Belchior. Viveu em Lisboa, terra de Fernando Pessoa, por quatro anos e hoje mora em Londres, cidade de Virginia Woolf.

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