Colaboradores Stéfany Caldas

‘Como é que se diz eu te amo?’

Ilustração: Puuung

Por Stéfany Caldas – 02/07/2020

Existem, sim, diversas formas de demonstrar amor. E não poder sair livremente para fazer compras parece ter acrescentado um desafio a mais a essa maneira de falar dela para alguém. Eu estava aqui pensando, por tudo o que ouvi, converso e discuto nesse tempo, sobre como a nossa forma de demonstrar amor parece intrínseca ao ato de gastar dinheiro.

Um conhecido buscava soluções para fazer algo diferente no dia dos namorados. Sem poder sair com a esposa, dependendo dos correios ou de um número mínimo de lojas físicas abertas, parecia que todas as opções para presentear e inovar haviam esgotado. Uma amiga falava sobre não ter condições financeiras de incrementar ainda mais o presente do namorado – a pandemia afetou demais a renda mensal dela.

E eu fiquei pensando no quanto a gente mede a nossa própria forma de demonstrar amor conforme o esforço que a gente faz para comprar algo para alguém. Quando o presente vai um pouco além do orçamento, o nosso primeiro instinto é memorizar a pessoa e o quanto a queremos bem e concluir: ela merece. Ao passo em que pensamos formas de parcelar determinado serviço ou produto para que seja possível levar para casa.

Tudo bem, inconscientemente a gente sabe. Tempo é dinheiro, a gente dedica boa parte do nosso dia pra conquistar o nosso salário, e, dessa forma, a gente oferece o nosso esforço junto com o presente à quem amamos.

Mas a minha reflexão é: outras formas de amor não valeriam tanto quanto?

Com essa ideia de não dar espaço para a ociosidade no período do isolamento, acabei pesando a mão nas atividades. Comi o que senti vontade, fiz exercícios, misturei alimentos bastante calóricos e o resultado foi uma infecção que me fez ficar de molho por dois dias. Desacelera, se alimenta de forma mais leve, descansa, se hidrata. O ritual foi esse.

Meu pai arranjou coco verde pra mim e minha mãe pôs pra gelar. Também me fez vários chás. Lembrei de quando eu era criança, quando, numa virose, meu avô era chamado para me visitar e fazia papa “d’água”. Explicava que não era assim tão boa, mas que eu precisava comer. E eu comia. E essas memórias, quando sentia dores abdominais e estava inquieta o suficiente para conseguir pegar no sono, me foram reconfortantes! Eu me senti amada.

E aí, comecei, silenciosamente, a agradecer a Deus por vir de um lar de amor. Sim, as pessoas têm defeitos, claro, mas os gestos impressos na gente ficam gravados para sempre. A minha amiga, que por sinal é uma jornalista talentosa e cozinheira maravilhosa, lembrou que o namorado dela estava desejando uma tortelete bem grandona. E fez. Do tamanho de um bolo. Coisa mais linda. Se separar o seu tempo para aprender uma receita nova, cozinhar e oferecer isso em forma de alimento para alguém não for amor, eu não sei o que é. E no fim das contas, é isso que importa. As coisas que as pessoas fazem espontaneamente pela gente e pelas quais faríamos o que preciso fosse, diariamente, sem a necessidade de simplesmente usar um cartão, para provar que as amamos.

E você, já pensou numa forma de demonstrar amor hoje?

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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