Coluna Romero Venâncio

Decotelli não é vítima… mas fruto do produtivismo acadêmico insano

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Por Romero Venâncio – 01/07/2020

No titulo já está tudo o que pretendo dizer em forma de desabafo, talvez… Passado todo esse festival de memes, chacotas, ridicularização pública ou sublimação do nosso (meu, em particular) anti-bolsonarismo, volto ao tema Decotelli com outros olhos. Aos desavisados, falo de Carlos Alberto Decotelli (ex-ministro da educação do governo bolsonaro de brevíssima passagem pela pasta).

Tudo o que sei dele tá no: “Breaking News: Decotelli explica inconsistências em currículo” no YouTube. Onde ele discorre sobre sua vida profissional e acadêmica (obviamente, como ele acredita que foi…) por 18 minutos. não vou me demorar no que já aconteceu e sabemos (o momento cassandra, fica para outra hora!).

Digo apenas o seguinte e diante dessa entrevista: ele é um “coach” que resolveu saltar para a vida acadêmica com o objetivo de chegar onde chegou: no ministério da educação desse desgraçado governo bolsonaro.

Ele sabia o que queria e como queria pra chegar onde chegou. A entrevista é perfeita nesse ponto. Ele diz tudo que nem sequer foi perguntado pelos jornalistas.

Mas meu interesse aqui é outro: usar o nome “Decotelli” para comentar outra coisa que vejo ainda hoje na universidade brasileira. Acho que muitos “Dacotellis” estão sendo preparados e “formados”. Sou filho de uma geração que viu nascer na sua fonte isto que se chama de “produtivismo acadêmico” (a palava produtivismo aqui tem sentido de uma degeneração da palavra produção. Seu pejorativo doentio).

Vi de perto a redução de tempo para elaboração de pesquisa em mestrados… e depois, em doutorados. As exigências de preencher formulários, fazer artigos em tempo record, fazer crescer o currículo a todo custo, participar de tudo que é evento e entrar na vida acadêmica com esse “espírito weberiano”.

Criou-se um sistema financiado pelo estado através da CAPES, CNPq e tantos outras organizações de fomento… Governos e mais governos (de PSDB a PT) só radicalizaram esse formato. A pós-graduação no Brasil se deslocou completamente de um projeto de Nação. Falo aqui no sentido lhe dava um Florestan Fernandes ou Antonio Candido (só para citar dois. Mas tem mais…).

Parece que perdemos por completo a diferença básica entre “ciências humanas” e “ciências exatas” e a temporalidade da produção entre as duas… Perdemos e isto definiu um rumo para a pós-graduação e para a ideia de ciência que se pratica nesse país. Com toda essas coisas, a graduação foi cada vez mais abandonada e a extensão virou “pequenas empresas grandes negócios”.

Tô resumindo demais, sei… Mas a coisa é grave… Um caso apenas me fez pensar em muita coisa… Tive um ótimo aluno. Escrevia bem, tinha dotes artísticos e praticava e queria trabalhar com temas “estéticos” e aprofundar essas questões. Um dia ele chegou pra mim e foi direto: com esses temas, não vou longe profissionalmente. Sem bolsa, incentivo, etc… Vou ter que fazer algo que não gosto e nem me realiza, mas me dará futuro acadêmico. Não disse muita coisa. Cada um escolha seu caminho, ainda é meu lema. Lhe desejei boa sorte e sofri um pouco com esta decisão dele. E pensei comigo em silêncio: essa pessoa daqui a duas décadas vai tá tomando remédios para aguentar esse trampo de sua escolha e para dormir. Não se troca sentido pra vida por remédios. Não tem “cura” essas coisas.

Nem quero mais falar disto aqui. Nessa pessoa vi um resultado da vida de tantos e tantas nas academias espalhadas nesse Brasil e que vejo diariamente na minha labuta. Estudantes que adoecem. Professores que adoecem. Vejo sempre. E essa pandemia foi paradigmática nesse ponto. Fazer o que????

Percebam: quero sair das “culpas pessoais” e deslocar para um sistema que imperiosamente conduz a estas coisas. Não que os indivíduos não possa fazer algo mais livremente. Mas não é comparável ao sistema. Paciência. Digo isto resignadamente. Nesse campo tenho que ser sincero: fui derrotado. E toco em frente como posso. Sou trabalhador… E trabalhador escolhe pouco… Entendo os que ainda estão iludidos. Ilusão faz parte. Mas não é mais meu lugar.

Recomendo aqui o “Caderno 28” do ANDES sobre o produtivismo acadêmico nas universidades públicas e privadas do Brasil. Textos escritos por educadores e cientistas. Lá tem tudo.

Volto ao Decotelli pra terminar essa prosa. Não quero aqui defender seus atos… Longe disto. Mas quero ir além deles e perceber que ele é fruto dessa insanidade que chamamos de “vida acadêmica”. Assim como o personagem Decotelli temos uma leva grande pessoas nas universidades sofrendo, se deprimindo, se massacrando para atender apenas aos relatórios insanos e que a nada levam em termos de produção científica que esteja em sintonia com um projeto de País ou de vida.

Num texto curto como este, não tenho a loucura de acreditar que dei conta desse assunto. Quero apenas abrir uma reflexão e deslocar nesse momento da figura pessoal do Decotelli para um sistema que gesta pessoas como ele.

A figura vai sair de cena e o sistema continua firme e forte como uma máquina de destruir sentidos, projetos políticos emancipatórios e tornar a vida acadêmica um antro de competições por migalhas ou por lattes maior ou menor… Fico por aqui.

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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