Colaboradores Edmar Neves

[RESENHA] O sistema prisional em foco na HQ Canil, de Marcel Bartholo e Rodrigo Ramos

Imagem: Divulgação HQ Canil, de Marcel Bartholo e Rodrigo Ramos.

Por Edmar Neves – 30/06/2020

Uma das malandragens que os bons autores costumam usar para compor suas obras é contar uma história para contar outra. O escritor argentino Ricardo Piglia, ao tratar das narrativas breves, diz que o conto conta duas histórias. A primeira história é contada no primeiro plano pelo contista, já a segunda vai ser construída nas entrelinhas, de maneira elíptica e fragmentada, construindo uma história secreta. Assim, num nível de leitura podemos ter a descrição da realização de um crime, por exemplo, enquanto no outro nível podemos ter as motivações que levaram ao crime. E essas histórias podem se fundir ao final, criando diversas reações no leitor, como a surpresa e o entendimento.

Escrevendo e desenhando capítulo final do projeto carniçoverso, iniciado com Carniça (Independente, 2017) e continuado em Lama (Carniça Quadrinhos, 2018), a dupla Marcel Bartholo e Rodrigo Ramos fazem um uso exemplar dessa malandragem ao construírem sua versão da lenda do lobisomem na HQ Canil (Carniça Quadrinhos, 2020). Na obra o filho do governador é pego cometendo um assassinato brutal e acaba preso. Junto dele, é levado para a prisão uma maldição que causa uma verdadeira carnificina dentro das grades.

Numa camada de leitura, podemos apreender uma típica história de terror nacional, onde temos figuras do nosso folclore protagonizando momentos de terror e suspense, com uma dose extra de gore, a depender do caso. Parar nessa camada já nos renderia uma ótima leitura, mas, como eu comentei, rola uma malandragem construída nas entrelinhas, que está na forma como os autores encontraram para tratar de um tema extremante complexo: a situação prisional do Brasil.

Mesmo que Rodrigo Ramos tenha cifrado essa discussão em metáforas e elas estejam abertas a interpretações, podemos tirar de Canil várias reflexões sobre o tema, cujo debate é de suma importância.

Para contextualizar um pouco a discussão, é necessário apresentar alguns dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), que é o sistema estatístico utilizado pelo Ministério da Justiça para coletar dados relativos à situação prisional no Brasil, cujas atualizações são realizadas pelos gestores das prisões. Essas informações são contestadas por especialistas, que apontam números muito maiores, mas servem como um parâmetro, um tanto quanto conservador é verdade, que nos ajudam a ter noção do tamanho do problema.

As prisões no Brasil

De acordo com uma pesquisa realizada em 2014, o Brasil tinha a 4ª maior população carcerária no mundo, com 607.731 pessoas presas. Desse total, 41%, ou seja, 250.213 pessoas estão presas sem nenhuma condenação, sendo que a quantidade de vagas nas prisões era de 376.669, ou seja, havia na época 231.062 pessoas a mais do que as prisões comportavam.

Para se ter uma ideia de como esse déficit foi construído, em 1990 havia cerca de 90 mil pessoas presas no Brasil, o que nos leva a um aumento de 575% da população carcerária em um período de 24 anos.
Desse número, 67% é composto por pessoas negras que foram presas por tráfico, 25% no caso de homens e 63% no caso de mulheres, sendo que 75% dessas pessoas têm idade de até 35 anos e 53% possuem ensino fundamental incompleto.

Outro dado relevante é que há um modelo de privatização dos presídios que está sendo gradualmente implementado no Brasil. Esse modelo gera uma série de controvérsias, onde alguns especialistas apontam para um melhor rendimento dos presídios, com mais presos trabalhando e estudando, enquanto outros especialistas apontam o aumento nos casos de violência dentro desses presídios, além de não existir uma dimensão do tamanho dos gastos públicos com essas empresas.
Pelo sim, pelo não, a única certeza que temos é que faltam muitos estudos para termos uma dimensão da situação carcerária no Brasil.

Voltando ao Canil [PODE CONTER SPOILERS]

A primeira coisa que me chamou a atenção na HQ foi o fato do filho do governador ser o portador da maldição que levou a tragédia para a prisão. Mesmo que o rapaz seja caracterizado como alguém deprimido, conformado com sua situação e aparentemente desprezado por seu pai, é extremamente simbólico que o motivador de um grande mal seja um representante do Estado.

Também é interessante notar a dinâmica que a prisão ganha com a chegada do filho do governador, onde o diretor e os funcionários do presídio buscam privilégios com a situação e as facções criminosas aparecem para reafirmar seu poder, nos levando a refletir sobre a complexa relação entre o crime e o estado.

A arte de Marcel Bartholo como sempre é um espetáculo a parte. Os traços carregados, as cores que por vezes são bastante escuras, mas que trazem contrastes de cores quentes, principalmente o vermelho, o retrato repulsivo e até caricatural de algumas personagens, o apelo ao gore e ao feio trazem a tona todo o peso do tema debatido, como a desumanização, crueldade e a violência praticada dentro dos presídios brasileiros.

Só para citarmos dois exemplos recentes dessa violência descomunal, temos a denúncia de violações dos direitos humanos no presídio que foi palco de uma rebelião com 17 feridos em Manaus, e a declaração do Departamento Penitenciário Nacional de que se estudava a possibilidade de colocar presos que apresentassem sintomas da COVID-19 em contêineres.

Por ingerência do estado, no final da HQ, policiais e presos são mortos. Pior, todos são transformados em monstros e fogem para a rua. Aqui reside o grande trunfo de Canil, que é mostrar que os presídios no Brasil servem como um ambiente propício para fomentar a corrupção, produzir e reproduzir violências em diversos níveis, aprofundar o abismo social que nos destrói e criar monstros e cadáveres em escala industrial.

Para ver, ouvir e ler:

Em Discussão! registra debate na CI sobre os presídios no Brasil – Canal TV Senado
Canil o terror que amadurece a trilogia Carniça – Ricardo Ramos
Teses sobre o conto (Formas breves) – Ricardo Piglia

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Edmar Neves é filho de Oxossi, se formou em Letras pela UFSCar, foi diretor executivo do projeto ‘UFSCar de Muitas Línguas’ e atua como redator.

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