Entrevista

Uma entrevista com Dudi Shaul

Foto: Yuv Cohen

A Arribação traz hoje uma entrevista com o músico israelense Dudi Shaul. O violonista, compositor e professor de música cresceu na Austrália e mora em Tel Aviv, Israel, onde trabalha para gravar o primeiro álbum com seu projeto Saravá. Criado em meados de 2018 em Tel Aviv, Saravá é um projeto musical de Shaul em parceria com os músicos Ben Ben Franklin (bateria e percussão) e Daniel Harlev (baixo).
Na entrevista, o músico fala de sua trajetória, a gravação do álbum de estreia do projeto Saravá, a recepção da música brasileira em Israel e muito mais.


ARRIBAÇÃO: Sua paixão pela música brasileira começou há mais de uma década, quando um amigo lhe presenteou com o cd Afro-Sambas. Qual foi o impacto desse álbum em você?

DUDI SHAUL: Este é um dos momentos que estão em minha memória claros como cristal. Eu cheguei em casa e coloquei o cd com a música de Baden e desde a primeira nota eu instantaneamente senti uma forte conexão. Eu ouvi e ouvi e ouvi e a cada dia eu sentia que a música se tornava parte de mim.

Durante o período em que morou em Melbourne, você estudou violão brasileiro com Doug DeVries. Comente sobre essa experiência e a importância em sua trajetória.

Eu ouvi o nome Doug de Vries algumas vezes, mas eu não conhecia nada sobre ele até eu começar a ter aulas com ele. Eu comecei a ouvir Baden por volta do mesmo tempo em que me mudei para Melbourne em 2009 para estudar violão clássico no Victorian College of the arts. Durante meu segundo ano eu estava procurando por uma mudança. Eu precisava respirar e tocar música que fosse relevante para minha própria cultura e pudesse dar a minha forma de tocar violão sementes para crescer e desenvolver para uma linguagem musical que eu pudesse chamar de casa. Durante o bacharelado nós tínhamos a opção de estudar um segundo instrumento e, de alguma forma, eu consegui convencer que o violão brasileiro era um outro instrumento e entrei em contato com o único violonista que eu ouvia falar para que ele viesse e me ensinasse na universidade. Eu não tinha ideia do que eu estava fazendo! Já na primeira lição eu estava totalmente cativado pelo modo de Doug tocar e maravilhado pelo seu conhecimento de violão brasileiro e seu amor pela música de Baden Powell. Eu tenho que admitir que eu somente compreendi mais do que ele estava falando depois de alguns anos depois quando estive no Brasil e pude tocar a música com outros, falando a linguagem e vivendo a cultura.

Além de Baden Powell você costuma escutar e se inspirar em outros violonistas brasileiros? Quais?

Sim! Com certeza! E são muitos! Eu vou dar os nomes de alguns que me inspiraram: Garoto, Raphael Rabello, Dino sete cordas , Paulinho Nogueira, Sebastião Tapajós, João Pernambuco, Dilermando Reis, Guinga, Yamandú Costa, Rogério Caetano, Gian Corrêa, Alessandro Penezzi, Marco Pereira.
De toda forma, além desses grandes violonistas, uma grande fonte de inspiração para mim era ir ao Brasil e estar com guitarristas e outros músicos que não são bem conhecidos, mas que realmente vivem a música. Mesmo se eu estivesse apenas andando com eles pela rua, muitas vezes eu podia sentir a música correndo profundamente em suas veias. E para mim isso é tudo.

Sobre a formação do Saravá. Como o grupo foi formado? Todos se conheceram em Tel Aviv?

A história do Saravá começou quando o baterista de 18 anos Ben Ben Franklin andava de bicicleta pelas ruas de Tel Aviv e ouviu os sons de um samba ao longe. Seguindo os sons ele viu um músico de rua brasileiro com o nome de Paulinho Ferreira na rua. Pela primeira vez em sua vida ele perguntou ao músico se ele poderia se juntar a ele. Dias depois Ben Ben se viu sendo chamado a sua primeira gig de samba com Paulinho e eu tocando violão. Neste tempo eu estava procurando por um baterista para tocar Afro-sambas e percebi muito rapidamente que ele era o garoto certo. Eu nunca tinha visto um baterista tão jovem e tocando com tanta paixão e maturidade.

Ben Ben Franklin, Dudi Shaul e Daniel Harlev. Saravá. Foto: Yuv Cohen

No grupo, como é feito o processo de criação e escolha dos arranjos das músicas?

Quando uma nova música chega para mim é normalmente acompanhada por um sentimento. Eu não tenho palavras para descrever, porque este sentimento somente vem com a formação das ideias de uma canção. Até agora, todas as minhas músicas chegaram cantando dentro da minha cabeça. Minha primeira reação à nova ideia é geralmente tocá-la no violão e desenvolver o material musical, adicionar acordes ou talvez outras seções até que eu tenha a sensação de um todo. Eu então gravo e deixo de lado por um tempo. O próximo passo é levar a composição para Ben Ben que sempre cria camadas de groove que dão um novo nível de experiência à música. Depois de trabalhar juntos nós chamamos Daniel Harlev com seu baixo para uma trio session. Daniel é muito bom na grande imagem da canção, levando-a na direção de um produto final e adicionando super levadas de baixo.

The Baden Powell Diaries conta até agora com cinco episódios. Quantos episódios estão previstos? Vocês podem nos adiantar alguma das próximas músicas?

Nós já temos gravados ‘Deixa’, ‘Tempo de amor’, ‘Manhã de carnaval’, ‘Berimbau/Consolação’ e ‘O bem do mar’. Iremos gravar outros três episódios, mas é provável que este projeto continue por um bom tempo e com muito mais episódios.

Como é a recepção da música brasileira em Tel Aviv?

Geralmente as pessoas amam música brasileira. Gravações como Eretz Tropit Yafa (País Tropical) e outras músicas que ganharam versões em hebraico se tornaram clássicos em Israel são exemplos de como a música popular brasileira está profundamente incorporada na cultura daqui. Existem tantos brasileiros que chamam Israel de casa e uma larga porcentagem de crianças crescem aqui aprendendo Capoeira e tem familiaridade com cantos sobre orixás. Existe também uma grande população de judeus marroquinos vivendo em Israel e é fascinante observar a conexão musical entre Marrocos e Brasil, especialmente quando você escuta o groove e traça de volta a rota dos escravos.

Vocês conhecem outros grupos que tocam música brasileira em Tel Aviv? Quais?

Sim! Existem alguns grupos de música brasileira e músicos brasileiros em Israel, a maioria em Tel Aviv ou em cidades próximas. Marcelo Nami, Joca Perpignan, Paulinho Ferreira, Juares dos Santos, Chorole, Roi Ben Sira, Fernando Seixas, Baticumpe…

Como está a produção da gravação do primeiro álbum do Saravá? Vocês tem previsão de lançamento?

Atualmente estamos trabalhando e preparando as bases da gravação, o que significa ensaios intensivos e trabalho conjunto nos arranjos e na sonoridade do grupo. Vou te contar um segredo: nós estamos preparando e nos planejando para os próximos quatro álbuns. O primeiro será lançado este ano, mas a data só será divulgada depois que terminarmos de gravar.

Se a resposta for sim, qual será o nome do álbum? Ele terá músicas autorais ou serão músicas do projeto The Baden Powell Diaries?

O primeiro será um curto álbum com músicas autorais, apresentando o som acústico do trio. O segundo álbum será dedicado a música de Baden Powell. Será um álbum de Afro-sambas ao estilo Saravá e terá a participação de Lala Tamar como uma das cantoras principais. Sobre o terceiro e o quarto álbum nós podemos conversar na próxima entrevista.

Lala Tamar e Dudi Shaul. Foto: Yuv Cohen

Nos videos do Saravá no canal no YouTube a cantora Lala Tamar é uma presença constante. Como vocês a conheceram e quando iniciou a colaboração dela com o grupo?

Está é uma ótima questão, porque nosso encontro assinalou uma abertura muito especial em minha música. Em 2017 eu decidi fazer uma turnê de verão em colaboração com um amigo violonista de flamenco chamado Ofer Ronen, que vive em Barcelona. O plano era conhecer o local e dirigir uma van até Portugal, onde tínhamos uma gig no Festival Andanças, parando no caminho em pequenas cidades para fazer concertos espontâneos. No último momento, duas amigas de Ofer se juntaram a turnê. Uma era a cantora de flamenco Ana Casado e a outra era Lala Tamar. Nenhuma das duas eu conhecia ou tinha ouvido falar anteriormente. As aventuras que se seguiram eu certamente nunca vou esquecer. Entre nadar em lindos lados, ensaiar na van, chegar aleatoriamente no concerto musical na louca cidade de Anna Moura e conhecer ela depois da apresentação, tocar no topo de castelos, conhecer Anat Cohen e Marcelo Gonçalves numa jam session no Teju Bar e noites de inesquecíveis no Festival Andanças.
Tamar e eu não ficamos próximos instantaneamente. Eu lembro que na primeira vez que nos conhecemos, trocamos um rápido olhar seguido de um abraço suado que quase me empurrou e de uma troca estranha de palavras. Todo dia da viagem era uma nova aventura e todos os dias descobríamos que estávamos conectados de maneiras nunca imaginadas. No final da viagem, ficou claro que nos encontraríamos novamente em Israel e começaríamos a tocar juntos. Gostaria de adicionar outra parte da história que nem sempre é contada. Nosso primeiro encontro ocorreu durante a lua cheia e cada um dos nossos principais encontros após a turnê de volta a Israel até hoje acontecem com a lua cheia, de maneira completamente não planejada. Talvez seja por isso que estamos tão conectados aos Afro sambas e músicas sobre Yemanjá, lua e mar.

O Brasil está nos planos de uma futura turnê?

Sim!! Nós estamos planejando uma turnê no Brasil por volta do início ou final do ano, dependendo da situação do mundo. Nosso segundo álbum dedicado aos Afro-Sambas só pode ocorrer depois de termos experimentado o Brasil como uma banda e colaborado com músicos locais durante um período. Além de excursionarmos com a nossa música, o sonho é fazer de uma a duas semanas de intensiva residência e troca cultural, com os nossos parceiros brasileiros permitindo o processo de trabalharmos juntos para firmarmos fortes relações interculturais. É sobre aprender a música e a cultura um do outro e ensaiar/gravar/filmar e ao final da residência mostrar o resultado para as comunidades locais. Esta é a única forma que nós queremos gravar nossa música, porque a conexão entre pessoas é o que importa para nós e a partir desse lugar a música sai naturalmente de formas surpreendentes. Nós estamos procurando por patrocinadores para ajudar a financiar este projeto e gostaríamos de conversar com qualquer pessoa que possa estar interessada em colaborar conosco.

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