Coluna Romero Venâncio

Duas Gaúchas. Lya Luft e Eliane Brum. Um medo e uma coragem

Por Romero Venâncio – 29/6/2020

Confesso logo do que sou culpado: uma notinha de nada e com o forte vento que me bate nesses dois últimos anos (2019-2020). Nada aqui é completo ou definitivo sobre essas duas mulheres. Mas é motivado pelo impacto do vi e li delas.

De Lya Luft li “Perdas e ganhos”, uns poucos textos na revista veja (confesso desde já, me deixaram enojado alguns) e a entrevista completa de 2008 no programa “roda vida” da TV Cultura. Só.

De Eliane Brum li o “A vida que ninguém vê” e vi sua entrevista no programa “Jogo de ideias” em 2010 que foi sobre “jornalismo e literatura”. Os dois programas citados estão completos no youtube.

As aparentes semelhanças: duas mulheres. Duas escritoras gaúchas. Duas cronistas. E acho que as semelhanças acabam aqui e não conseguiria detectar mais nada em comum entre elas. Talvez por viver envenenado por esta polarização dos dois últimos anos, precise provocar na minha cabeça a polarização dessas duas mulheres. Talvez.

Lya Luft. vou repetir o que muitos devem ter dito sobre “Perdas e Ganhos” (2003): é uma autobiografia existencial quase em tom de conversa. Trata de infância e de criação dos filhos, das diferenças e dos encontros entre mulheres e homens, da maturidade, da velhice e da necessidade de descomplicar a vida…

Os mais deslumbrados à época com o livro, chegaram a dizer que a obra busca dar um testemunho pessoal sobre a experiência do amadurecimento. Convoca o leitor para ser seu amigo imaginário: cúmplice e companheiro de reflexões que vão da infância à solidão e à morte, ao valor da vida e à transcendência de tudo…

Ao ler o livro, vê-se que “Perdas e Ganhos” é um monólogo da autora e uma reflexão compartilhada com amigas imaginárias, que estão vivendo o seu tempo. Seus ensinamentos começam pela auto-estima. A família é sua base. A carga fica muito grande sobre a figura de pai e mãe. Escritos visivelmente situados num quadro existencial vago e beirando uma espécie rara de “auto-ajuda”.

Desses escritos, jamais sairiam palavras sobre bolsa família, cotas para negros em universidades, famílias desestruturadas pela miséria, desmonte da escola e da saúde públicas ou mesmo esquerda ou direita, ditadura de 1964, etc…

O livro fez um grande sucesso entre uma classe média brasileira ávida por temas existenciais egoicos e que levaram a autora se convidada pela direção da revista veja para escrever uma coluna fixa. E das colunas da veja, juntamente com seus leitores, a votar em Bolsonaro (hoje, pelo que disseram, ela se disse arrependida de tão cândido voto!!!).

Entende-se agora porque esta senhora defendeu em coluna na veja a pena de morte e no programa roda viva de 2008 voltou ao tema e ainda acrescentou que poderia ser para menores de idade e depois de ter falado candidamente sobre os seus netos.

A palava medo entra agora. Tenho medo de pessoas assim e sei que é porque já vi e já li sobre nazi-fascistas ou torturadores que matavam implacavelmente numa hora e em outra beijavam e amavam seu filhos ou netos em outra hora. Essas pessoas me assustam. Tenho imensa dificuldade de me relacionar com pessoas que têm uma visão linear e obsessiva com a palavra “família”. A vida não é uma reta euclidiana. Sem mais delongas, afirmo diretamente: não me identifico com o que escreve Lya Luft e nem a forma com que aborda temas “existenciais”. Sua ideia de afetividade e racionalidade me assustam.

Eliane Brum. Fiquei profundamente impactado e marcado pelo que li em “A vida que ninguém vê” (2016). O que percebi neste livro logo de cara e que me levou a uma identificação direta com aquelas palavras-carne: uma escritora em busca dos acontecimentos que não viram notícia e das pessoas que não são celebridades.

Uma cronista à procura do extraordinário contido em cada vida anônima. Uma escritora que mergulha no cotidiano para provar que não existem vidas comuns. O mendigo que jamais pediu coisa alguma. O carregador de malas do aeroporto que nunca voou. O macaco que ao fugir da jaula foi ao bar beber uma cerveja. O álbum de fotografias atirado no lixo que começa com uma moça de família e termina com uma corista. O homem que comia vidro, mas só se machucava com a invisibilidade.

Essas fascinantes histórias da vida real fizeram formam uma obra que emociona pela sensibilidade da prosa e pela agudeza do olhar que a repórter imprime aos seus personagens – todos eles tão extraordinariamente reais que parecem saídos de um livro de ficção.

Eliane Brum também trabalha (e como trabalha!) com temas existenciais, mas numa outra chave que àquela que descamba na “auto-ajuda”. Jamais. O afeto em Brum não é uma palavra genérica e vazia de conteúdo, mas grávida de acontecimentos concretos e cotidianos, as palavras tem lado, lugar e classe.

Numa comparação bem rasteira e constrangedora: o existencial de Luft está para coisas que cheiram a “Heidegger” e o existencial de Brum parece coisas que cheiram a “Sartre”. Essa maldosa comparação aqui e com efeito didático foi apenas para dizer que estes filósofos são citados aqui como metáforas do que podem levar os escritos das duas mulheres citadas: um deles leva a bolsonaro e tudo que ele representa, o outro jamais levaria ao fascismo.

Não existem mais dúvidas sobre a relação “Heidegger-Hitler” e não existe mais dúvidas sobre “Sartre/anti-fascismo” (recomendaria a leitura de seu livro: “Reflexões sobre o racismo”).

Não preciso fazer nenhum esforço intelectual para perceber que nas palavras de Eliane Brum jamais encontrarei amparo para pena de morte ou defesa de armamento generalizado… Nos escritos de Eliane Brum vejo uma coragem.

Concluo aqui com a nítida convicção de que os olhos com que vejo essa duas escritoras hoje é muito marcado pelo muito lacrimejar dos anos 2019-2020 e posso ter sido injusto com Luft e simpático demais com Brum. Corro o risco dos que tomam partido.

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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